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AS ESTRELAS DA MINHA COZINHA

Segunda-feira, 14.03.16

Quando eu era criança, a casa onde meus pais, meus irmãos e eu morávamos era muito pequena e pobre mas tinha estrelas, muitas estrelas. Estrelas brilhantes e reais.

Era na cozinha, vetusta e muita escura, com o chão de tábuas velhas e remendado, que existiam as estrelas. Vinham do céu como aquelas de cá de fora e que eu via apenas nas noites em que juntamente com a minha mãe e meus irmãos íamos fazer serão, à Fontinha, a casa da minha avó. Eu delirava com todas as estrelas. As que habitavam o céu das noites claras e com luar, quando saía de casa para os serões e as que povoavam o céu da cozinha da casa de meus pais e cuja luz caía em catadupa sobre os bois de sabugo, sobre os porquinhos de batata-doce e sobre as galinhas de conchas de caramujos com que eu brincava, num mundo que eu próprio construíra, de que era o criador.

Minha mãe ralhava quando nas suas lides diárias, do lar para a porta, da porta para a mesa, da mesa para o lar, sobretudo se carregada com algum alguidar com bolo escaldado ou com alguma panela com água a ferver, tropeçava em mim, aninhado no chão, encantado com o brilho das estrelas, a admirar e a regozijar-me com as minhas próprias criaturas.

Debaixo do lar, onde proliferara um desarrumo misto, de achas de lenha, de garranchos, de batatas, de inhames, de cestos e até de um caldeirão de cozer morcelas, o Farrusco, emergindo de um ronronar morno, dava saltos e atirava-se a um outro murganho, que saía das buracas das paredes, na procura de comida. Eu fugia com medo daqueles bichos repugnantes, assim como me afastava da porta do forno, debaixo da qual assentava, permanentemente, arraiais um baldo de madeira, ensebado, nojento e sujo que ia armazenando, durante o dia, águas das lavagens, cascas de batatas e de inhames e uma ou outra côdea de pão de milho rijo que nem o diabo a podia comer. Ali ficava até se encher, aguardando que meu pai chegasse a casa para o ir despejar na gamela do suíno. Este ficava louco de contentamento. Grunhia como se tivesse ali um manjar celestial… Eu adorava o espetáculo do porco faminto, louco de contentamento com tão hedionda gamelada.

Voltava à cozinha e à contemplação do mundo de que eu era o criador. Lá estavam as estrelas… Não eram muitas, mas tinham uma luz clara, diluída, fulgurante e florescente que banhavam e concediam um esplendor de graça e uma áurea de santidade à minha criação. Os bois de sabugo ficavam com o pelo mais brilhante, os porquinhos de batata-doce parecia crisparem-se de enfeitiçamento e as galinhas e galos de conchas de caramujo latejavam estonteantes como se fossem aves de verdade. E eu ficava ali horas a fio a contemplar a beleza daquele mundo do qual eu era o criador. Criador de tudo exceto das estrelas. E esse era o meu enigma. As estrelas da minha velha cozinha fortaleciam o meu mundo, enriqueciam a minha criação, iluminavam o que eu próprio construíra mas não fora eu que as criara, nem sequer conhecia a sua origem. E permaneci muitos anos nesta ignorância sem nunca deixar de apreciar a beleza estonteante das estrelas que brilhavam reluzentes no firmamento da minha velha cozinha.

Só algum tempo depois, quando meu pai contratou o senhor Cabral para retelhar a minha casa, eu deixei de ver estrelas na minha velha cozinha. Percebi, então, que afinal elas nada mais eram do que pequenos buraquitos existentes entre as telhas, através dos quais os raios de sol se infiltravam para dentro de casa, em cones oblíquos e florescentes, iluminando todo o meu mundo fantasmagórico que, assim e aos poucos, começava a desfazer-se. E confesso que até fiquei muito triste e passei a odiar o senhor Cabral por ter vindo retelhar a minha casa, destruindo e apagando para sempre as estrelas da minha cozinha.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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