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AS FURNAS

Quinta-feira, 23.01.14

As Furnas eram incontestavelmente, na década de cinquenta, de entre os lugares despovoados da Fajã Grande, um dos mais importantes. Esta relevância vinha-lhe, sobretudo, do facto de as Furnas serem, juntamente com o Porto, uma espécie de “celeiro da freguesia”. Na realidade o lugar das Furnas, para além de extenso em área, possuía terrenos muito férteis e produtivos. Era ali e também no Porto que se situavam os maiores, mais férteis e mais produtivos cerrados da Fajã Grande. Com uma área muito extensa e localizado junto à orla marítima, o que de alguma forma prejudicava, por vezes, as colheitas, o lugar das Furnas tinha a norte o interessante, quanto ao nome, lugar do Rolinho das Ovelhas e a sul o ainda mais extenso lugar do Areal, sendo que a própria fronteira entre estes dois lugares era de difícil definição, cuidando-se que as Furnas abrangeriam todo o espaço que ia desde o Rolinho das Ovelhas até à zona do Redondo e o Areal, a partir daí até à rocha do Pico do Areal. A leste, as Furnas faziam fronteira com a Rua Nova e as Courelas e a oeste com o Oceano Atlântico, em cuja orla marítima se situavam os lugares do Respingadouro, do Caneiro das Furnas, da Ponta do Baixio, da Coallheira, da Retorta e do Redondo.

O acesso às Furnas fazia-se por um caminho de carros que partia da Rua Nova e das Courelas e se cruzava mesmo no início deste lugar, atravessando-o de leste a oeste, permitindo, assim, o acesso não apenas à maioria das propriedades que ali abundavam, mas também ao campo de futebol, ali localizado, e ao mar. Através deste caminho, no entanto, não se tinha acesso a muitas das propriedades. Para aceder a estas circulava-se através de algumas canadas, algumas autênticos maroiços. Dentro das Furnas, para além do caminho principal, apenas havia um outro, curto, estreito e sinuoso, bem no centro do lugar e que dava acesso ao cerrado do Guarda-Furtado. Muitas terras, no entanto ficavam mais distantes e o acesso, impossível mesmo pelas canadas existentes, era assegurado pela cedência dos terrenos situados entre elas e o caminho. Embora sem ser acessível a carro de bois, também se podia chegar às Furnas por uma canada que existia junto ao mar, que ligava o Porto ao Areal e que se destinava, sobretudo, aos pescadores e aos apanhadores de lapas. Para além de produzirem, milho, batatas brancas e doces, couves, abóboras e feijão, nas Furnas, junto a muitas terras, havia maroiços e noutras, currais anexos, onde se produzia uvas e figos, umas e outros de excelente qualidade.

Mas a importância das Furnas também lhe advinha por ser lá, junto ao mar, entre o Respingadouro e o Caneiro das Furnas que se localizava o campo de Futebol da Fajã Grande. O chamado “campo maior”, onde se realizavam, nas tardes de domingo, os jogos de futebol e um pequeno, na parte norte, destinado às crianças. Este campo sucedeu a um primeiro que existiu na freguesia, no lugar do Estaleiro, entre o Porto e o Calhau Miúdo, mas que teve duração efémera. Inaugurado na década de trinta, o campo do Estaleiro foi palco do primeiro jogo de futebol na Fajã Grande. No entanto, alguns anos depois deu origem a um cerrado num serrado que posteriormente foi dividido por “malhões” dado que pertencia a três donos: ao Laureano Cardoso, ao António Barbeiro e ao Chileno. Mas a 8 de Setembro de 1940, festa da Senhora da Saúde foi inaugurado, em sua substituição, o campo das Furnas, onde nos anos seguintes se realizaram diversíssimos jogos. O apogeu da prática futebolística na Fajã Grande, com o epicentro nas Furnas, foi durante os anos cinquenta, onde a equipa local, o Atlético disputou variadíssimos jogos com o Sporting e a União de Santa Cruz, o Rádio Naval das Lajes e a académica da Fazenda.

O lugar das Furnas ainda se celebrizou porquanto nele se localizava a maior lixeira a céu aberto, da freguesia. Situava-se precisamente, por cima da Furna das Mexideiras, ali bem perto do Caneiro das Furnas e para lá era despejado quase todo o lixo da freguesia: camas velhas, portas desfeitas, utensílios de cozinha inutilizados, colchões esfrangalhados, garrafas partidas, caldeirões esburacados, grelhas carcomidas pela ferrugem, latas furadas, enfim tudo aquilo que devido ao seu estado de envelhecimento e degradação já não servia rigorosamente para nada. Era também na orla costeira das Furnas que se situavam alguns dos melhores pesqueiros da Fajã, nomeadamente o Respingadouro, a Retorta e sobretudo o Caneiro das Furnas., sendo que a Retorta serviu muitos anos de zona balnear das mulheres a quem, na altura, era praticamente interdito tomar banho quer no Porto Velho, quer no Cais, zonas destinadas aos homens.

Dada a sua localização relativamente próxima das casas e da igreja, as procissões das Rogações, realizadas nas têmporas de Setembro e destinadas a implorar a chuva para os campos, passavam no caminho circundante ao lugar das Furnas.

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publicado por picodavigia2 às 09:16





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