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AS HORTAS DO DELGADO

Segunda-feira, 17.08.15

Das zonas de terras de mato da Fajã Grande, quer da orla leste que ladeava a Rocha desde o Pocestinho à Fonte Simão, quer a das que situavam em toda a zona costeira, desde Santo Antóno até ao Vale Fundo, a zona do Delgado era indiscutivelmente a que possuía melhores hortas. Também povoadas de hortas muitos férteis as suas vinzinhas da Cabaceira e Caminho da Cuada, assim como a de Santo António, esta muito pequena e, na prática, integrada no território do lugar do Delgado. Havia também algumas hortas na Cancelimha, na Lombega, na Silveirinha e até no Pocestinho mas não se aproximavam, em termos de qualidade, das do Delgado e arredores.

A palavra horta no léxico fajãgrandense significava quinta ou pomar, sendo a designaão de horta, no sentido de terreno onde se cultivam legumes e cereais, substituída por courela ou terra da porta. Assim as hortas, quintas ou pomares da Fajã Grande eram terrenos limitados por altas paredes e por renques de árvores, constituídos, geralmente, por várias belgas e currais, destinados à cultura de árvores de fruto e, nalguns casos, inhames. As hortas do Delgado eram, de facto, verdadeiros pomares, ou seja terrenos onde se cultivavam sobretudo plantas frutíferas, cuja produção, no entanto se destinava, exclusivamente, para o consumo da família a que pertenciam. Quando o excesso de frutas ultrapassava o consumo familiar, ofereciam-se aos parentes, aos amigos ou a quem se devia favores ou era destinado à alimentação dos suinos, sobretudo no caso das maçãs. Raramente a fruta era vendida. Diga.se, de passagem, que esta fruta era muito saudável pois para além de ser de muito boa qualidade não era tratada com nenhuns produtos químicos. Era indispensável na saúde e crescimento das crianças. Muitas vezes também era utilizada para fazer doce que devidamente guardado em frascos durava para todo o ano, E que saborosos que eram estes dices de frasco! 

O que caracterizava estas propriedades era o facto delas também terem zonas de cultivo de batata doce, legumes, inhames e milho. Daí, provavelmente, a razão de também se chamarem hortas. Estas hortas do Delgado eram excelentes terrenos, muiito produtivos e muito bem trabalhados, onde floresciamom belas arvores de fruta, assim como incensos, faias, loureiros, sanguinhos e muitas outras árvores. Os fetos, a cana roca e outras mondas eram ceifadas e retirados e, por vezes, nos currais mais fundos e mais tapados por paredes ou bardos colocavam-se as galinhas. Para alem de adubarem o terreno com o extrume retiravam-lhes as ervas daninhas. Nestas hortas cultivam-se diversas árvores de fruto, entre as quais bananeiras, pereiras, macieiras, amexieiras. araçaleiros, damasqueiros, pessegueiros, castanheiros, toas elas também se cultivavam bons e saborosos inhames, geralmente entre as árvores de fruta. laranjeiras, tangerineiras e outras. Nalgumas existiam também videiras e figueiras de figos branos, pingo de mel e pretos. Estas hortas ou pomares também permitiam que os que as demandavam puessem gozar de momentos de sombra e tranquilidade enquanto saboreavam as deliciosas frutas. No entanto isto raramente acontecia, porquanto o tempo era todo pouco para o trabalho.

Na década de cinquenta, uma das maiores e melhores hortas do Delgado pertencia ao meu avô materno José Batelameiro. O acesso à mesma fazia-se pelo caminho que ligava o cimo da Assomada ao cruzamento de Santo António com o caminho da Cuada. Nesse cruzamento voltando à esquerda, ou seja a leste, seguia-se para a Cabaceira, Espigão e Lavadouros. No cruzamento da ladeira que dava para o Outeiro Grande havia um enorme portão, guarnecido com duas grossas ombreiras e uma verga de pedra única, como se de uma porta de edifício se tratasse. Era por aí que se entrava. Subindo alguns degraus entrava-se na primeira belga, transformada em terreno agrícola onde se cultivava batata doce, feijão e milho. A horta de forma retangular, prolongava-se na direcão da Cuada e era protegida do caminho e dos terrenos circundantes por altas e grossas paredes. Nas belgas e currais seguintes, situados numa zona mais funda existiam belas macieiras, excelentes amexeieiras, pereiras, damasqueiros e bananeiras. Todas árvores bem extrumadas e trabalhadas e, consequentemente, muito produtivas. Eram sobretudo as ameixas que ali se produziam que faziam crescer àgua na boca. Ameixas grandes, vermelhas e carnudas. Mas as peras e as maçãs não hes ficavam atrás, assim como as laranjas, os damascos e até os figos. No final da década de cinquenta a horta foi cortada a meio, pela nova estrada que ligava o Porto da Fajã à ladeira do Pessegueiro, junto à Ribeira Grande. Além disso todos os meus tios abalaram para a América e meu avô faleceu. Por tudo isso, a horta do Delgado do meu avô, uma das melhores da Fajã. aos poucos, foi fenecendo a olhos vistos. Finalmente foi vendida. Dissolveu-se.

No início do século XX estas hortas do Delgado, assim como a fruta que nelas se produzia parece terem tido fama em toda a ilha das Flores. A elas e às suas saborosíssimas maçãs se refere o contista açoriano Nunes da Rosa, na altura a paroquiar na freguesia do Mosteiro e que no seu livro Pastoraes do Mosteiro, quando num dos contos se refere às célebres romarias que nesses tempos eram realizadas à Fajã Grande, por altura da festa da Senhora da Saúde.

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