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AS RENDEIRAS

Quinta-feira, 03.07.14

Sendo a freguesia de São Caetano, terra de pescadores e marinheiros, era natural que as mulheres se dedicassem ao fabrico artesanal de rendas, quer por se inspirarem nas próprias redes tantas vezes elaboradas e remendadas pelos pescadores quer, sobretudo, para anestesiar a solidão e a angústia que sentiam, enquanto os homens partiam para o mar, na caça à baleia, na pesca da albacora ou na simples pesca artesanal em pequenos barcos, sujeitos, muitas vezes, a grandes perigos e tormentas.

Ao mesmo tempo que anestesiava a solidão e desfazia a angústia, o fabrico das rendas constituía uma das bases de sustento das famílias da freguesia, geralmente, dependentes duma agricultura de subsistência. Embora se ocupassem das lides domésticas e ajudassem os homens nos trabalhos do campo, as mulheres de São Caetano dedicavam grande parte do seu tempo às rendas. Por isso, estas, desde sempre, representaram uma importante actividade económica para a freguesia. Na realidade as mulheres faziam rendas, aproveitando todo o tempo disponível, para as vender e, assim, ajudar o debilitado orçamento familiar, ajudando na compra de bens alimentares, como o milho e outros bens necessários e de amanho pessoal e do lar.

Nas tardes de verão, as mulheres juntavam-se em grupos, procurando as sombras dos pátios e balcões, para poderem fazer renda sentadas no chão ou em cima de um banquinho. Faziam renda paga à begocha para pessoas que na freguesia, ou nas freguesias vizinhas, tinham o negócio e as iam vender para o Faial, ou as exportavam para o Continente. Também à noite, aos serões, especialmente no Inverno, juntavam-se a fazer serão, nas casas de familiares e amigas, por vezes mais de uma dezena de mulheres à volta de uma mesa, iluminadas apenas por um candeeiro a petróleo. Faziam-se luvas em crochet, blusas, viras de lençol, golas de renda, jogos de naprons, toalhas redondas, etc. Essa renda era artisticamente composta por renda de gancho, com entremeios de amoras, dálias e caçador, olhos, gregas entre outros desenhos, com diferentes designações, todos eles com muita exigência e pormenor. Os trabalhos maiores e mais elaborados, no caso das toalhas, blusas ou viras de lençol, por vezes, englobavam várias pessoas que os faziam como que em série, sendo que as mais habilidosas, as mais velhas e as mais experientes realizavam as partes mais difíceis. Era por assim dizer como que um trabalho em série, feito por várias mãos mas que requeria muita cautela e responsabilidade.

Enquanto faziam a renda conversavam, cantavam e, mais tarde, ouviam notícias, num pequeno transístor a pilhas, encimado por uma rodilha de fios eléctricos, a servir de antena.

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publicado por picodavigia2 às 18:50





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