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AS RIBEIRAS DE SÃO CAETANO

Quinta-feira, 03.09.15

Ontem de tarde, choveu torrencialmente no Pico, nomeadamente em São Caetano, freguesia encastoada na encosta sul e vizinha da montanha. Se a este dilúvio acrescentarmos os aguaceiros dos dias anteriores teremos um nível de pluviosidade muito elevado e que teve, como primeira consequência, o encher das ribeiras, nomeadamente as da vertente sul da montanha que atravessam a freguesia de São Caetano, com destaque para as ribeiras da Prainha, Grande, Dilúvio e Laje, esta já na Terra do Pão. Habitualmente secas, apenas em dias de grandes chuvadas se enchem de água, por vezes a transbordar das margens e a causar alguns prejuízos à população. Mas em contrapartida, transformam-se em espetáculos deslumbrantes e belos, como a Ribeira da Prainha, que antes da foz, junto ao Porto de São Caetano se atira em catadupa por uma pequena ravina formando uma maravilhosa cascata, adquirindo, nestes dias de chuvas torrenciais, um gigantesco e intransponível caudal, para quem pretende deslocar-se ao rolo ou a uma piscina natural ali existente. Atravessá-la quer ali quer no local onde ela desliza paralela à rua de São Caetano é um ato quase heroico, uma aventura e um risco, sobretudo para os mais pequenos ou para as pessoas de idade e para os que embora não morando por ali, necessitam de atravessá-la por possuírem propriedades nos arredores. Uma outra ribeira, talvez a mais enigmática e misteriosa, hoje também com grande e desusado caudal é a Ribeira da Laje. As águas desta tarde também a encheram, dotando-a de volumoso caudal fazendo com que descesse os matos e atravessasse o povoado, rápida e flamejante, formando também, antes de desaguar no oceano, uma bela e graciosa cascata, correndo altiva e revoltosa, por entre penhascos e ravinas, circundando penedos e desenhando pequenos lagos. Quase esquecidas por que encobertas por densa vegetação e com pequenos caudais estavam hoje as ribeiras Grande e a do Dilúvio, talvez porque as chuvas dali se tivessem desviado um pouco, mas também elas constituindo um misto de encanto, mistério, persistência e proficuidade.

Ribeiras de São Caetano, uma espécie de mito e sublimidade. Hoje renasceu o som turbulento e cavernoso das suas águas, baqueando nos rochedos escalavrados e perfurando terrenos lamacentos, alagando e encharcando pedregulhos ressequidos, e elas próprias rejuvenesceram como que em eco ao longo das ravinas, por entre rochedos, ocupando grotões e valados, simulando sinfonias inverosímeis, cadenciadas e transcendentes, enchendo o silêncio desta tarde de setembro de sons e de cores esbranquiçadas, amarelas e alaranjadas, espelhando no oceano onde desaguam as marcas castanhas do seu atrevimento desusado, transformando São Caetano numa numa espécie de aguarela natural, mítica e mirabolante.

 Mas ao lado, as vinhas carregadas de cachos amadurecidos parecem assustar-se com tão ousado atrevimento. Não precisam de tanta água, de tanta chuva. Esta chuva, há dias, fazia falta, hoje está em demasia. A cultura da vinha na Ilha do Pico começou no final do séc. XV, quando se iniciou o povoamento da ilha. Graças ao solo vulcânico, rico em nutrientes, ao micro clima seco e quente das encostas protegidas do vento por muros de pedra áspera e escura e aquecidas pelos raios do sol, as vinhas de São Caetano conseguiram condições excecionais de maturação, mas não conseguem resistir a estas chuvadas. Umas fechadas em currais protegidas de paredes de lava, mais próximas do mar. Outras em terrenos outrora agrícolas, mais protegidas pelos arvoredos circundantes. Hoje assustaram-se assim como se assustaram os figos que até perderam uma boa parte da sua inebriante doçura.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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