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BOLA MATOU PAULA

Domingo, 05.08.18

(CONTO POPULAR)

 

Era uma vez um rei que tinha uma filha bela e formosa. Como não tinha filho varão que lhe sucedesse no trono, seria a princesa a herdar-lhe o reino. Por isso, entendia o velho e sábio monarca que a futura rainha deveria casar-se com um jovem que fosse muito sábio, inteligente, astuto e capaz de o substituir, sabiamente, na governação do reino. Assim, o rei, que se considerava a sua filha, a pessoa mais inteligente e sábia do reino, mandou avisar todos os seus súbditos que a princesa se casaria com o jovem que tivesse a arte e o engenho de lhe propor uma adivinha cuja solução ela não fosse capaz de desvendar. Determinava, ainda, o monarca que todos aqueles que se apresentassem no palácio com uma adivinha cuja solução a princesa deslindasse seriam, imediatamente, enforcados.

Apresentaram-se no palácio real muitos jovens, doutos e inteligentes, com as adivinhas mais diversas e de difícil solução. Porém a todas, a sabedoria da princesa dava resposta pronta e imediata. Assim, dezenas e dezenas de jovens foram enforcadas. É que nenhum conseguia apresentar uma adivinha cuja solução, a princesa não descortinasse.

Ora numa aldeia, muito pobre e humilde, vivia um rapaz que era muito estúpido e insensato. Logo que teve conhecimento do anúncio, decidiu também tentar a sua sorte. Os irmãos, porém, sabendo como ele era tolo, tentaram convencê-lo a não se apresentar no palácio real, pois decerto que iria lá envergonhá-los a eles e à sua família. De nada serviram os pedidos dos irmãos. É que o rapaz, para além de tolo, era muito teimoso e os irmãos, por mais que insistissem, não encontraram maneira de o impedir de sair de casa e de se apresentar no palácio.

Então, para terem a certeza de que ele, apesar da sua teimosia, não chegaria ao palácio real, resolveram deitar-lhe veneno numa bola que ele levava para se alimentar durante a viagem.

No dia seguinte, sem saber o que os irmãos haviam feito, lá partiu o rapaz com a bola dentro de um saco, montado numa mula que se chamava Pala, a caminho do palácio do rei.

A viagem, no entanto, era bastante longa e demorava mais do que um dia. Quando anoiteceu o rapaz deitou-se junto a um castanheiro, ao qual amarrou a mula. Porém, enquanto dormia, a mula que estava muito esfomeada, sem que ele se apercebesse, comeu a bola que os irmãos haviam envenenado.

Quando o rapaz acordou, na manhã seguinte, a mula estava morta. De repente, ao levantar-se, viu aproximarem-se três lobos. Cheio de medo, subiu para o castanheiro, junto ao qual tinha dormido, ao mesmo tempo que os lobos se aproximavam e comiam a mula. De cima da árvore, o rapaz tentou afugentar os lobos, disparando um tiro mas, como tinha fraca pontaria, não acertou em nenhum dos lobos. A bala foi parar lá longe e, por mero acaso, acertou numa lebre, matando-a. Os lobos, no entanto, morreram, imediatamente, após comer a mula. Então o rapaz desceu da árvore e pegou na lebre com a intenção de comê-la, caso encontrasse lume e lenha ou qualquer outra coisa com que fizesse uma fogueira para a assar, pois já estava cheio de fome. Como não encontrasse nada que pudesse queimar, entrou numa igreja, arrancou as folhas de um missal e fez com elas uma fogueira onde assou a lebre. De seguida comeu-a, assim como duas crias que ela tinha na barriga Como ficasse com muita sede foi à pia da água benta e bebeu toda a água que lá havia. Ao sair da igreja chovia torrencialmente. A enxurrada era tanta que arrastou os lobos para um rio que por ali deslizava. Quando parou de chover o rapaz pôs-se, novamente, a caminho e atravessou uma ponte. Olhando para o rio, viu os três lobos arrastados pela correnteza das águas, enquanto apareciam a voar sobre eles, sete corvos muito esfomeados que se atiraram aos lobos e os devoraram.

Finalmente, o rapaz chegou ao palácio do rei. Todos se riram do seu aspecto pacóvio, simplório e apalermado. Mas como pensassem que não haveria problemas, pois um abantesma daqueles nem sequer seria capaz de contar a adivinha mais simples do mundo à princesa, deixaram-no entrar. Decerto que, dentro de momentos, o esperava a forca.

O rapaz chegou junto da princesa e do rei e este pediu-lhe que contasse uma adivinha. Como não sabia mais nada, o rapaz contou, tudo o que lhe acontecera durante a viagem, dizendo:

- Bola matou Pala, Pala, depois de morta, matou três. Atirei ao que vi e matei o que não vi, comi o nascido e o por nascer e com as palavras de Deus minha fome matei. Bebi água que não era do céu nem da terra, passei por cima do duro que estava sobre o mole e vi sobre três mortos sete vivos cantando?

A princesa não foi capaz de descobrir nada do que o rapaz lhe contou. Foi ele que lhe explicou, tim-tim por tim-tim, tudo o que tinha visto e o que lhe acontecera durante a sua viagem até ao palácio real.

E, como palavra de rei não volta atrás, o rapaz casou com a princesa e herdou o trono do velho e sábio monarca.

 

Conto popular, contado (antigamente) na Fajã Grande.

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