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BONABOIÃO

Quinta-feira, 23.01.14

Enquanto o fronteiro, D. Paio de Farroncóbias, embainhava a espada, Pedro Fogaça aproveitava para se ir informando sobre as intenções de el-rei de Leão, D. Afonso VII, relativamente a uma possível aceitação da independência do Condado. O fronteiro esclareceu:

- D. Afonso VII está preocupado com as ataques do rei de Navarra e com a necessidade de os travar e impedir, por isso, não pode, pelo menos nos próximos tempos, atacar-nos. Foi essa a razão por que D. Afonso Henriques lhe prestou vassalagem e assinou com ele a paz, em Tui. Sabe muito bem o Príncipe que el-rei de Leão, nestes últimos tempos, não o atacará e, por isso mesmo, pôde voltar-se para sul, com o intuito de afastar os infiéis sarracenos e alargar as fronteiras do nosso Condado. E em boa hora o fez, pois com esta retumbante vitória, decerto que os sarracenos irão cessar, pelo menos durante algum tempo, os seus combates e o primo há-de temê-lo cada vez mais. A assinatura com D. Afonso VII de um Tratado de Paz e a vassalagem que lhe prestou, foram apenas estratégias, reveladoras da grande perspicácia do Príncipe, para conseguir obter uma paz periódica que permita uma investida a sul. Tratou-se de um tratado de interesses, ilustre Pero Fogaça, senhor de Lubisonda - e batia-lhe com a palma da mão nas costas, – de um verdadeiro tratado de interesses, ao qual de facto D. Afonso Henriques não se submeteu nem se submeterá jamais. Por isso, não desistimos, nem nunca desistiremos da independência deste Condado. Viva Portugal! Viva El-rei D. Afonso Henriques! Além disso, várias mesnadas de muitos ricos-homens se têm levantado contra os galegos. Há dois dias que me separei de sua Alteza, porque ele pretende voltar à Galiza, para exigir de Afonso VII a independência. Eu, amanhã, seguirei para a minha querida cidade Trancoso, a fim de impedir quaisquer levantamentos que por ali se façam.

Pernoitou D. Paio de Farroncóbias na humilde mas abastada casa do honrado Pêro Fogaça. O alcaide de Trancoso, ao entrar, foi recebido pelo filho de Pedro Fogaça, o jovem Banaboião que não cabia em si de contentamento, pois pela primeira vez via o temível fronteiro, esposo de Iluminata, que ostentava no rosto várias das vinte cicatrizes que lhe cobriam o corpo de guerreiro valoroso. Acolheram-no também a mulher de Pedro Fogaça, Aldonça e seu tio Gonçalo Guterres, vigário da Vacariça. Ao ser-lhe apresentado o clérigo, perguntou-lhe D. Paio se, por ter o mesmo nome, descendia da nobre e ilustre família de D. Hermínio Guterres que outrora fora adaião da Sé de Braga, seu confessor quando criança e que fora ele quem, ao lado do Arcebispo Primaz, D. Germano de Santamaria, o baptizara, na mesma Sé de Braga. Ao que o vigário Gonçalo Guterres respondeu afirmativamente, informando-o de que D. Hermínio Guterres, seu tio, morrera, aos noventa e cinco anos, com fama de virtude e santidade. O fronteiro vangloriou-se por estar na presença de uma família tão cristã e com tão grande luzimento de virtudes teologais.

Pero Fogaça, embevecido por tão sublimes elogios, retorquiu que fora já no pendor da vida tão repleto de bens que não os media nem os merecia, que nem conhecia ou sabia o que tinha de seu, mas que, durante muitos anos, grande desventura caíra sobre si e sobre sua esposa, a virtuosa D. Aldonça. Queixara-se, anos a fio, da esterilidade de sua esposa o que lhe pesava como praga ou castigo divino. Mas que enfim, Deus Nosso Senhor e Pai Omnipotente, não tanto em seu merecimento mas antes em sua misericórdia infinita e suprema bondade, se apiedara deles e que, tal e qual fizera outrora a Zacarias e Isabel que na sua velhice haviam concebido, gerado e criado o precursor messiânico - S. João Baptista, - também a ele e a sua esposa, a humilde e virtuosa D. Aldonça, fora dada a graça, não tanto por seus méritos e virtudes, mas por intercessão junto de Deus Padre Nosso Senhor e do seu muito virtuoso tio D. Hermínio Guterres, a graça de na sua velhice terem um filho varão, aquele jovem que ali estava, na presença do mui nobre cavaleiro - Banaboião. Deus amerceara-se deles e com alguma razão o fizera, pois servos de Deus mais submissos e obedientes ao Criador não os havia por Lubisonda e arredores. Davam esmolas aos pobres, cumpriam os mandamentos da Santa Lei de Deus e as determinações da Santa Igreja de Roma. A sua generosidade era tanta que poucos por ali não eram seus afilhados, repartindo com todos os seus bens e haveres

Banaboião ajoelhou-se diante do nobre cavaleiro e este colocando-lhe a mão de guerreiro experiente sobre o ombro interrogou-o de seus intentos bélicos e a vontade de o seguir na sua mesnada.

Pêro Fogaça logo se antecipou, informando-o de que sua estimada e casta esposa Aldonça em seu desespero de esterilidade prometera vezes sem conta a Deus, à Virgem e aos Santos de suas devoções, que a ter um filho varão ele havia de consagrar-se ao Altíssimo e subir o altar para celebrar os santos mistérios. Mais acrescentava o generoso e honesto mercador que sempre se opusera a tal sacrossanta intenção, sabendo mesmo que poderia ofender a Deus Nosso Senhor e que por sua vontade Banaboião havia de seguir era a carreira de mercador, dando continuidade aos seus negócios como ele dera aos de seu pai e este aos de seu avô, sempre com honra, dignidade e a mais nobre solicitude. Um filho que Deus lhe desse, haveria de continuar-lhe os negócios. Porém se a promessa de Aldonça se concretizasse e Banaboião subisse ao altar teria na mesma a sua bênção. Aldonça rogara-lhe pela sagrada paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo que não afastasse o filho do regaço materno, não o deixasse seguir para Salamanca, nem sequer o mandasse tirar graus com os Cónegos de Santa Cruz, nem muito menos o iniciasse nas lides comerciais, apagando-lhe os fulgores da vocação religiosa. Por isso o afastava de todo o convívio com o sexo feminino, exceptuando-se sua mãe e a jovem Ximena, casta e pura como cecém.

Banaboião corou.

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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publicado por picodavigia2 às 16:27





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