Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



BRACÉU

Segunda-feira, 25.06.18

Que nascia muito bracéu no mato da Fajã, que a sua apanha era uma espécie de dia de festa e que era excelente para fazer a cama ao gado no Inverno a fim de se tornar, depois, em estrume fertilizante para os campos agrícolas eu não tinha dúvidas. Agora que o bracéu se chama Festusca jubata e que pertence à família dos Poaceae é que não fazia a mínima ideia, se não tivesse recorrido ao site da Universidade dos Açores, Base de Dados, Biodiversidade.

Ora o nosso Festusca jubata nascia e crescia no mato, logo ali por cima da Rocha, fazendo jus do seu nome, pois partilhava-o com o do próprio lugar onde florescia. Como as terras onde desabrochava eram grandes e ficavam longe das casas, a sua apanha, corte e acarretamento demorava um dia inteirinho. Lá se partia de madrugada, em ranchos, os homens ainda noite escura, carregados com foices, bordões, gavelas de espadana, ganchos de ferro e cordas, enquanto as mulheres, acompanhadas pelas crianças, seguiam já mais ao romper do dia, derreadas ao peso dos cestos a abarrotar de comida, transportados à cabeça sobre grossas rodilhas, arrastando os fedelhos pela mão.

A manhã era de ceifa contínua, árdua e cansativa que o Festusca jubata não era de brincadeira. Era rijo e escorregadio e as foices não eram lá grande coisa, por vezes, mal amoladas e mais adequadas para cortar manteiga do que bracéu. Depois era necessário fazer as paveias, amarrá-las em molhos com as folhas de espadana e acarretá-los para o cimo da rocha, para junto do arame, com uma pausa para o almoço, pelo meio.

Terminada a ceifa, após a amarração, os pesados molhos do Festusca jubata eram acarretados, colocados e empilhados no cimo da Rocha, junto ao arame. De imediato uns desciam a rocha em passos rápidos a fim de, colocando-se estrategicamente junto ao arame no cruzamento da Ribeira, retirassem os molhos atirados pelo arame, para que nenhum dificultasse o deslizar do que se lhe seguia. Mais tarde seriam colocados em carros de bois e transportados para as “casas velhas” ou de arrumos, onde eram guardados até serem utilizados no Inverno

O deslizar contínuo e ininterrupto de dezenas e dezenas de molhos de bracéu no arame proporcionava um espectáculo deveras inolvidável. Os molhos colocados lá no alto um a um, dançavam airosamente ao longo do arame, umas vezes atingindo enorme velocidade, outras deslizando vagarosamente e, por vezes até paralisando por completo a meio do trajecto. Tal percalço exija que fosse arremessado com força gigantesca um outro molho que com o seu impacto, batendo fortemente naquele que havia parado a meio do arame, o havia de voltar a por em movimento. Só que, por vezes a vontade de resolver o imbróglio era tanta e a força de arremesso tão exagerada que os molhos, ás vezes até em conjuntos de dois, três ou mais que ali se iam acumulando, paralisados, ao chocarem uns com os outros, provocavam uma espécie de repentina e maravilhosa chuva de folhinhas de bracéu que se iam diluindo e perdendo sob o verde dos socalcos e das ravinas e o negro pétreo dos andurriais.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Junho 2018

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

GEOCLOCK


contadores de visitas

GEOWEATHER


contador de visitas blog

GEOCOUNTER


contador de visitas

GEOUSER


contador de visitas

GEOCHAT


contador de visitas