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CAPITÃO FRANCISCO AUGUSTO

Sábado, 04.08.18

Capitão Francisco Augusto,meio americano,meio 
do Reino de Portugal ; açoriano
de berço ;de sua raiz flamengo ;
comandante de navios ,
bom trancador de baleias,
com fama de beber bem:
brabo no soco,perdido 
se lhe cheira a mulher…

Mas porquê lembra-me agora deste primo,
mais que morto,que afogado,
ausente do meu sentido?

Assim mesmo.Exactamente:
guerras da Índia..ou não era ?
Isso mesmo:levar tropas .
E El-Rei que ia a bordo
despedir-se do Infante,
general das ditas tropas.
E veio então um senhor…
Senhor não ;um senhorito,
lá dos palácios de El.Rei,
a ensinar ao comandante
do África ,ou com seria 
o nome deste vapor 
que a El.Rei se beijava a mão
quando El_Rei a estendia.

Capitão Francisco Augusto,meio americano, meio 
do Reino de Portugal;açoriano 
de berço;de sua raiz flamengo ;
comandante de navios,
que outra coisa não era
senão bicho do mar- alto,
rude por fora,por dentro 
coração de cera-bela:
mar whisky e mulheres…
famoso de costa a costa,
querido dos armadores,
estimado da maruja,
comandante de primeira
entra todos os melhores!

Rosa de limos do mar,pedra de musgo
e candura,meu puro primo-terceiro,
por que me lembro de ti ?

… Ora bem, vamos ao conto

Foi-se embora o senhorito
lá dos palácios d’ El-Rei.
« Beijar a mão ...»---e andava 
capitão Francisco Augusto
de lado a lado da ponte,
ali era o seu reino
de céu a céu no mar-alto,
bem longe desta Lisboa 
onde os machos se desmancham
nos cheiros e nas zumbaias , 
falando tal qual madamas,
rabeando pelas ruas.
« Beijar a mão..Go’the hell !
Beijar a mão...»---e andava,
como touro encurralado
renegando a castração,
de lado a lado da ponte
---«...ao pai que me fez e à mãe 
que me cá botou,beijava.
Fora disso...» --- e não parava,
roído de cisma e espanto,
de raiva e pena de si,
de lado a lado da ponte
---« nem sequer ao padre-santo ! »
Ora quando a Majestade subiu a bordo do África ,
ou lá o nome que tina
o tal transporte de guerra ,
Capitão Francisco Augusto,
seis pés d’alto,louro,homem
mais valente que as marés
e um vozão de temporal,
pegou-lhe na mão rosada,
fofa que de mulher.
( « Beijar a mão...Go’the hell !
Sun of a gun ! ´´é o beijas ! »).
Lá estava o tal senhorito,
mandalete do palácio,
e a corte toda a olhar:
mão d’El Rei na sua mão,
não era mão…
E era o Mar
crescendo na sua frente --- 
… não era mão,não senhor !
E apertou-lha até que o outro
franziu a cara de dor.
Um «Good-Bye,Majestade ! »
e foi-se enorme e direito
por mando na sua gente.

Lembranças que desterro das poeiras do esquecido,
por que me vêm , como um laço,
ao de cima da memória ?
Capitão Francisco Augusto,meio americano meio 
do Reino de Porugal;açoriano 
de berço;de sua raiz flamengo;
comandante de navios ,
bom trancador de baleias…
--- lá foi e lá se tornou
até Goa e p’ra Lisboa.

Das guerras não soube nada,
que de guerras não cuidava;
a sua gerra era o mar,
e a guerra sempre amanhada.
Levou a tropa e voltou.
E adeus Lisboa,adeus África ,
foi-se de proa a Bastão
num vapor da White Star,
ser outra vez capitão
d’um três mastros baleeiro;
ali já podia estar ,
sem corte nem beija-mão:
ali era ela por ela,
ali era homem inteiro !

Mas porquê estar a acordar de raízes afundadas,
esta abalar do silêncio
dos pegos d’Além-Mar ?

Capitão Francisco Augusto (e basta ! Nada mais digo )
morto na volta do Cabo
Horna ou Corno (tanto faz ),
comandante de Good Hope, 
com ela se foi ao fundo,.
Lá está no fundo do mar !

Ora isto foi...isto foi …?
--É tudo quanto guardei,e um retrato em corpo inteiro.
De resto mais nada sei
deste meu primo-terceiro.
Nem me importa quando foi.

In Sinais de Oeste – Pedro da Silveira - 1952

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