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CHEGADA A SÃO JORGE

Sábado, 28.06.14

Alta madrugada, o Carvalho levantou ferro do Cais do Pico e aproou às Velas. O mar estava calmo e a Lua surgia agora na sua máxima força, clarificando a noite e definindo com maior rigor os contornos escurecidos das três ilhas até então confundidas e misturadas com o negrume nocturno. O luar por sua vez, projectava-se no mar, transformando-o num espécie de espelho prateado e cristalino que o Carvalho, impulsionado pelo propulsar das suas potentes máquinas, ia quebrando, num ritmado e ronceiro marulhar.

À medida que o barco se aproximava de S. Jorge, eu cismava com a minha saída naquela ilha. Era lá, nas Velas, que vivia a Dona Hermínia e eu não podia deixar de ir a terra visitá-la.

A Dona Hermínia era alguns anos mais velha do que eu. Saíra das Flores e viera estudar para o colégio de Santo António, na Horta. Ao terminar o quinto ano concorreu para os Correios e foi colocada em S. Jorge, precisamente na vila das Velas, onde já trabalhava havia três anos. No Verão ia sempre passar férias às Flores. Encontrara-a, no mês de Agosto, em casa de uma prima que era costureira e onde ela vinha, de vez em quando, encomendar alguma roupa. Quando no final de Agosto se despediu de mim, antes de partir para São Jorge, ao saber que eu ia viajar, no Carvalho seguinte para S. Miguel, disse-me com convicção:

- Espero por ti em São Jorge. Tens que ir aos Correios das Velas, visitar-me. Não te esqueças.

Já era dia claro quando o Carvalho fundeou na baía das Velas. Debruçado sobre a amurada do convés da primeira classe observava distraída e displicentemente a maior e mais importante vila de S. Jorge, as Velas, um aglomerado de casas muito branquinhas, umas dispostas em anfiteatro junto ao cais, outras mais ao longe, encastoadas nas encostas sobranceiras e misturadas com as pastagens e as terras de mato galvanizadas de um verde muito verde e prolongadas indefinidamente até interior da ilha. O paquete lentamente voltou a popa a Sul e obrigou-me a mudar para estibordo, a fim de continuar a ver a vila e a ilha.

Pouco depois de o navio fundear na enorme e calma baía das Velas, ali mesmo em frente à vila, desci o convés da primeira e aproximei-me do portaló, com a denodada intenção de abalar para terra, logo na primeira lancha. A saída estava facilitada, pois o número de passageiros que pretendiam desembarcar em S. Jorge era reduzidíssimo. Ambicionava assim ver a Dona Hermínia e estar com ela durante todo o tempo possível. De repente lembrei-me que não devia fazê-lo sem primeiro dar conhecimento ou até mesmo pedir autorização ao meu marítimo paraninfo. Voltei ao convés e percorri o navio todo a ver se encontrava o Senhor Natal. Mas nada! Esperei impacientemente mais de uma hora e nada… Logo hoje é que o homem havia de demorar-se… Esperei, esperei, percorri novamente e voltei a percorrer o navio de lés-a-lés. O Senhor Natal continuava sem aparecer. Já passava das dez quando, finalmente, o encontrei. Manifestei-lhe a minha decisão de ir a terra, visitar a Dona Hermínia, a qual de imediato sofreu forte contestação por parte dele. Que nem pensasse numa coisa dessas. Que se vinha ao seu cuidado só sairia para terra quando e onde ele saísse. E que tirasse o cavalinho da chuva que a São Jorge é que ele não havia de ir. Eu, porém, tanto barafustei, tanto gritei e tanto berrei que o homem lá cedeu, mas com uma condição: - Tinha que estar a bordo sem falta, antes do meio-dia.

Voltei ao portaló num ápice e apanhei o primeiro batel que encostou ao navio e parti para terra, investindo quase metade do dinheiro que trazia comigo na compra do bilhete.

Ao chegar ao cais, deparei-me logo com o edifício dos Correios. Tímido e ansioso, entrei. O coração pulou-me de contentamento ao ver a Dona Hermínia do lado de dentro do balcão, juntamente com outras empregadas. Sem que ela me visse aproximei-me do cliché como se fosse comprar selos ou enviar uma carta. Quando chegou a minha vez a empregada que atendia os clientes perguntou-me o queria. Informei-a de que não queria nada ou melhor queria apenas falar com aquela senhora e apontei para a Dona Hermínia que continuava sentada a uma mesa, a ler uns papéis, sem dar conta da minha presença.

Assim que me viu, aproximou-se do balcão, levantou-lhe o tampo, saiu para a parte reservada ao público, beijou-me em ambas as faces, fez-me uma série de perguntas sobre a viagem e, colocando-me o braço por cima do ombro, com muito carinho, conduziu-me para dentro do balcão e apresentou-me às suas colegas de trabalho e à chefe.

- Olhem a encomendinha que me chegou das Flores, no Carvalho – dizia ela, apresentando-me a umas e outras.

Eu, envergonhadíssimo e vermelho que nem um pêro, lá fui respondendo timidamente às perguntas que me faziam, sobre o meu nome, a minha idade, como tinha corrido a viagem, se tinha vomitado muito e se gostava de ir para o Seminário. Uma delas, mais nova e com ar mais atrevidote, atirou-me de rompante:

- Para o Seminário?! Hum! Não tens olho de padre.

Ao lado uma outra comentava:

- Tão perfeitinho! Podes crer que é um desperdício ires para o Seminário.

A Dona Hermínia, porém, não as ouvia. Conversou com a chefe, demorou mais um pouco a arrumar uns papéis dispersos sobre a sua secretária, enquanto a chefe, levantando-se, vinha ter comigo, como que a entreter-me, propondo que, a partir de agora, sempre que passasse por S. Jorge, fosse visitá-las.

Só quando ultrapassámos a porta dos Correios percebi que a Dona Hermínia me iria acompanhar numa visita às Velas. É que a chefe autorizara-a a suspender o seu trabalho por alguns momentos, a fim de estar comigo e me acompanhar até que eu regressasse ao navio.

Passeámos pela vila, visitámos a Matriz e sentámo-nos no Jardim da Praça da República. Depois, adivinhando a fome que eu devia sentir ao fim de dois dias de encerramento naquela maldita terceira classe do Carvalho, levou-me a almoçar a um restaurante da vila, pagou a conta, exigiu que a não tratasse mais por “Dona”, voltou comigo aos Correios para me despedir da chefe e das outras meninas, acompanhou-me até ao cais e, como se tudo isso não bastasse, ainda comprou e pagou o meu bilhete de regresso a bordo. Mas a Dona Hermínia não me parecia uma pessoa muito apressada e, além disso, sabia muito bem a que horas o navio havia de partir para a Graciosa. Por isso demorou-se um tempo sem fim em cima do cais, conversando comigo e pedindo-me que lhe prometesse que havia de visitá-la sempre que por ali passasse. Para cúmulo, enviou-me para bordo precisamente na última lancha, apesar de eu manifestar uma enorme mas simulada preocupação.

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publicado por picodavigia2 às 09:28





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