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COMER SEM CORRER

Segunda-feira, 05.05.14

(UM CONTO DE ANTÓNIO TORRADO)

 

O leão estava cansado. Não que se sentisse velho, mas isto de correr o mato atrás de uma gazela, que capricha em não se deixar apanhar, puxa muito pelo corpo e acrescenta mais fome à que já se trazia. Sobretudo se a gazela ficar a perder de vista…

“Correr para comer não compensa – considerava o leão. – Tenho de mudar de táctica.”

Fez constar por alguns bichos da sua companhia que estava doente, mesmo muito doente. Escondeu-se na gruta, onde tinha os seus aposentos e esperou.

O chacal e o lobo, marqueses do séquito do leão, encarregaram-se de espalhar a notícia:

– O nosso rei leão está à morte. Prestem-lhe a homenagem que ele merece.

Queriam eles dizer com isto de homenagem que seria conveniente e muito gentil que cada animal por si fosse visitar o leão, em sinal de respeito e num último aceno de despedida.

Última despedida era, mas não para o leão…

Formou-se uma longa fila de bichos à entrada da caverna onde morava o leão. Todos muito compostos e de semblante carregado. Mais estariam se soubessem o que os esperava…

Um a um iam entrando, introduzidos na gruta pelo chacal e pelo lobo, ambos muito prazenteiros e risonhos, que até parecia mal, em cerimónia tão solene.

Mas havia quem faltasse à chamada. A lebre, por exemplo.

Foram dizer à matreira da lebre que o leão, no delírio da febre, mencionara o seu nome, cheio de saudades.

– Coitadinho! – foi só o que ela disse.

Juntar-se ao cortejo de homenagem é que não se juntava.

O chacal veio ter com ela, em atitude de censura:

– Que desprendimento o teu, lebre. O pobre leão à morte e tu nem uma visita lhe fazes. És muito insensível. Um coração de pedra.

Não sou nada – disse a lebre, afastando-se, prudentemente, do bafo do chacal. – O que eu não gosto é de apertos, de ajuntamentos. 30 35

– Como assim? – estranhou o chacal. – Só entra um bicho de cada vez…

– Bem sei, que eu tenho visto – replicou a lebre. – Entra um de cada vez e ainda não saiu nenhum. Sendo assim, dentro da gruta, devem estar em tal aperto, que mal conseguem respirar. Imagino a confusão, as lamúrias, os choros… E mais não quero imaginar, senão ainda me comovo. Adeusinho, senhor chacal, e as melhoras do doente.

A lebre saltou e a história acabou.

 

António Torrado, Fábulas Fabulosas

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publicado por picodavigia2 às 22:55





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