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COMO SE ENGANAVAM GALINHAS E APANHAVAM POMBAS

Terça-feira, 03.04.18

Na Fajã Grande, antigamente, todas as casas tinham galinhas. Geralmente eram criadas num curral, junto à porta da cozinha e alimentadas com milho e com o farelo que sobrava do peneirar da farinha. Com ele, juntando-lhe água, fazia-se uma massa a que se adicionavam couves cortadas, cascas de batatas picadas ou outras sobras de comida, a fim de que o cardápio das ditas cujas ficasse mais suculento. Era também no curral que ficava o poleiro, ou seja, um casoto de madeira encravado na aba duma parede, ou uma espécie de furna debaixo de um pátio, com o respectivo linheiro, o que permitia recolher os ovos com muita facilidade. No entanto, quem tinha hortas, por entre as terras de mato, tapava-lhes bem as paredes, amarrava e cosia as asas às galinhas e soltava-as na horta, com a dupla vantagem de lhes retirar as ervas daninhas e de lhes ir lançando algum estrume.

Quando meu pai arrendou uma horta, na Cancelinha, foi decidido que para lá haviam de ir as nossas galinhas. Coube-me a mim, por ser o mais novo e ainda pouco afoito a trabalhos mais pesados, a tarefa de lá ir todos os dias, a fim de lhes reforçar o menu e recolher os ovos.

As atrevidas, porém, apanhando-se à solta decidiram que haviam de pôr os ovos, aqui e além, onde bem entendessem, muito escondidinhos e mudando de sítio em cada dia, o que me obrigava a uma tarefa árdua, incómoda, demorada e por vezes improfícua para lhes descobrir os esconderijos. Era costume, para evitar tal estouvado procedimento, deixar-lhes um ovo no linheiro inicial e assim, as parvas, cuidando cada uma que ele era seu, iam, à vez, lá desovar os restantes. Não me podendo dar ao luxo de utilizar semelhante estratégia, pois todos os ovos eram poucos para alimentar tantas bocas famintas lá em casa, decidi arquitectar uma nova artimanha que substituísse aquele estratagema.

Assim, resolvi ir a uma lixeira que havia nas Furnas, por cima das Mexideiras e junto ao Caneiro, para onde se atirava tudo o que eram velharias inúteis: camas, portas, caldeirões, roupas, ferros velhos, etc. Revirei, procurei, rebusquei e lá encontrei a metade da mão de uma porta, em loiça, muito branca e redondinha, em forma de meia-lua. Não podia ter sido mais eficiente a minha pesquisa! Lavei-a, limpei-a, meti-a no bolso e, no dia seguinte, levei-a para a Cancelinha, na esperança de que seria a última vez que procuraria ovos pelos mais esconsos recantos da horta. Dos vários linheiros que descobri, seleccionei o melhor, recolhi os ovos, ajeitei-o muito bem e coloquei-lhe a metade da mão da porta de tal maneira direitinha e com a parte bojuda virada para cima, de forma a simular, perfeitamente, um ovo.

E não é que a partir desse dia nunca mais tive que procurar ovos por outros sítios ou em novos linheiros.

Que parvas eram aquelas galinhas!...

Também, nas Flores, muitas casas, sobretudo as que tinham crianças, criavam pombas. Quem não as tinha caçava os pombos-bravos, de bela plumagem, totalmente cinzenta azulada, com o dorso e asas da mesma cor, sendo o pescoço, no entanto, de um tom quase esverdeado. Apesar de serem, habitualmente, frequentadores das buracas e concavidades dos outeiros e das rochas, quase ao lado das cagarras e dos coelhos, onde pernoitavam e nidificavam, pombos e pombas bravos desciam, de vez em quando, ao povoado, ou na procura de pitéu que por aqui ou por ali fosse deixado esquecido, ou para surripiar o milho que se punha a secar nos pátios traseiros das casas ou até para ir esgravatar na terra após a sementeira e retirar da terra um ou outro grão que ainda não começara a germinar. Era nessa altura que a ganapada, na qual eu me incluía, se dedicava, com perícia e engenho, à sua caça.

O estratagema era simples. Um cesto de vimes, sobre o qual se colocava uma pequena pedra, um “focho”, com aproximadamente um palmo de altura, um grande cordel, feito geralmente de fios de espadana atados uns aos outros nas extremidades e um bom punhado de milho. Colocava-se o cesto com o fundo voltado para cima, num pátio ou noutro lugar liso ou com uma superfície plana e, levantando-lhe a borda de um dos lados, colocava-se o pau a estacá-lo, de forma que ficasse meio levantado e com a altura suficiente para entrada de uma pomba. Depois espalhavam-se os grãos de milho em fila, desde fora até à área interior do cesto, estendíamos o mais disfarçadamente o cordel, porque as pombas eram umas grandes desconfiadas e escondíamo-nos bem longe dali, a segurar a outra extremidade do cordel, mas em lugar que nos fosse permitido ver o cesto e o milho. Não tardava muito e, tentada pelo milho, lá estava uma pomba, por vezes duas ou três. Iam comendo um grão após o outro até uma ficar totalmente debaixo do cesto. Nessa altura, num de repente, puxava-se o cordel, o “focho” caía assim como o cesto de vimes, ficando a pomba presa lá debaixo. Depois era só preciso arte e engenho para levantar levemente a beira do cesto e apanhá-la. Mas a tarefa não era fácil. É que as malditas e espertalhonas, muitas vezes fugiam, quer quando sentiam puxar o cordel quer quando tentávamos apanhá-las debaixo do cesto. Mas mesmo assim ficavam presas algumas. Uns utilizavam-nas como pitéu e diziam que depois de temperadas e fritas eram melhores do que coelho, outros como eu, faziam uma gaiola de madeira e ali as colocavam, dando-lhe milho e alguns mimos de maneira a que, aos poucos, se fossem domesticando, tornando mansinhas, podendo assim criá-las em cativeiro, a fim de não só recolher os seus ovos, mas também apreciar a sua nidificação e a criação dos filhotes.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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