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COMO UMA DEUSA

Quinta-feira, 05.02.15

Quando entrou na sala, pela primeira vez, ostentava um modelo de perfil, aparentemente, austero, ríspido e altivo mas ornava-se duma beleza estonteadora, duma elegância deslumbrante e dum porte gracioso. Uma deusa a substituí-la não se manifestaria com maior esplendor.

Lúcia era uma bela mulher. Tinha um corpo perfeito e esbelto, um olhar profundo e comunicativo, um sorriso terno e mavioso, uma postura nobre e fascinante, embora se adivinhasse nas suas atitudes e nos seus gestos uma estranha e desconcertante melancolia.

Nascera numa família muito modesta onde nem pai nem mãe foram alfabetizados. Apesar de tudo, olharam sempre de bom grado para a ambição da filha em querer estudar e haviam-se empenhado, com excessivo zelo, na sua formação, proporcionando-lhe a obtenção de um curso universitário. Ela reconhecia o sacrifício dos pais e ficara-lhes imensamente grata, mas optara por abandoná-los, emancipando-se ainda muito nova. Eles não compreenderam e, pior, nunca lhe perdoaram esse devaneio. Consideravam que a sua obrigação era ajudá-los e ampará-los, agora que o rolar dos anos lhes pesava, perene em achaques e maleitas. Na Universidade, Lúcia conheceu Rodrigo, filho de um poderoso industrial. O rapaz pouco se interessava por estudar e cedo se empenhou na senda empresarial do progenitor. Foi um namoro longo e prolongado, com avanços e recuos. Por fim e depois de muita hesitação, casaram. Lúcia tornou-se rica, passou a viver numa bela vivenda, com todo o conforto com que sempre sonhara. Mas não amava Rodrigo, de verdade. Empenhava-se, melancolicamente, no sacrifício de um amor parco que tinha como recompensa o excesso de conforto quotidiano em que vegetava. Na verdade, para ela, as excelentes condições de vida que o marido lhe proporcionava, justificavam uma aceitação, mesmo amarga, daquele casamento.

Na escola onde agora lecionava todos a respeitavam, porque a todos cativava. Mas era o Silveira, o colega que a recebera e acompanhara desde o primeiro dia em que ali chegara, que mais lhes despertava a atenção. Era uma amizade, verdadeira, transparente e desinteressada, pese embora já tivesse percebido que o Silveira não se ficava só pela simples amizade. Sabia muito bem que ele a apreciava de forma desmedida e exorbitante, cativado e encantado pela sua beleza. Isso lisonjeava-a. No primeiro dia em que a vira, solitária, sentada num banco, de perna elegantemente alçada, fora sentar-se junto dela. Deslumbrado e sem saber como iniciar o diálogo saiu-se com esta:

- É dos Açores? Disseram-me que estava cá colocada, este ano, uma colega açoriana.

Ela, percebendo a marosca, abanou a cabeça com um sorriso e ele, pedindo desculpa fez simulada intenção de afastar-se. Ela que nada havia a desculpar. Podia ficar e sentar-se à vontade. Foi um tempo deslumbrante para o Silveira, o que se seguiu. Ela a procurar a aproximar-se em cada hora e em cada momento, a jurar que fora o único que se aproximara no primeiro dia, que a recebera com amizade, que lhe dedicara um momento de carinho. Nunca havia de o esquecer. Ele deslumbrado e embevecido.

E, no fim do ano foi com muita satisfação que ele soube que ela continuava na escola. Dobrado um agosto dolente, um verão de saudades, a escola era um mar de serenidade e consolo. Mudara-se tudo. Uma colega nova havia de se lhes juntar. Três! Uma amizade, profunda e verdadeira, a delas. E o Silveira sempre, babado, embevecido, a acompanhá-las para aqui e para acolá. Muito de conversas, muito de segredos. Agora, porém, mais afastado da Lúcia. Era forçado a partilhá-la. E ela, de dia vpara dia, a emaranhar-se mais e mais com a nova amiga.

Foi num dia primaveril, cheio de sol e bonança, que a Lúcia faltou. Há dias que a ideia de faltar lhe obcecava o espírito. Avisara os amigos do tiro. Nem um nem outro estranhou. Era normal. O marido ausente no estrangeiro há quase um mês. A abarrotar de saudades, ia esperá-lo ao aeroporto. Quis o destino que amiga recebesse um telefone do marido. Também ele estava no aeroporto, juntamente com a Lúcia. Se não estranho pelo menos curioso. Decidiu pôr-se à alerta. Recorreu à própria memória, onde não foi difícil relembrar meia dúzia de episódios, aparentemente normais, mas sub-repticiamente comprometedores para lhe demonstrar que ali havia gato. Oh! Se havia. E num ápice despejou todas as suas dúvidas e suspeitas sobre o Silveira. Ele que não. A Lúcia era senhora de uma nobreza de carácter, de uma dignidade de costumes que nunca havia de trair, de forma tão vil, uma amiga. Mas do Silveira, cada vez mais embeiçado por ela, tudo menos mexer-lhe na honra. Enfeitiçado, não via um boi! Destemida e arrojada tornou-se mais astuciosa. Simulou conversas, proporcionou escorregadelas, desvendou enigmas. Nada lhe escapava. Dormia de caçadeira encostada ao travesseiro. Era claro como água. Estavam envolvidos e desde há muito. Hesitou! Como havia de proceder? Senhora dos seus passos, seria fácil apanhá-los em flagrante. Mas isso nunca. Preferiu a alternativa de alargar os olhos a outros recursos Somente aquém do aceitável, não do humilhante, do indigno e muito menos do arruaceiro. De resto, não se sentia já com força anímica para grandes façanhas que lhe atribuíssem o galardão de vítima. Optou por confrontá-los, num encontro a três. O Silveira ainda se ofereceu para estar presente, na qualidade de amigo e confidente de ambas. Seria o mediador. Nem pensar. Uma coisa é a amizade outra as questões com terceiros.

Apertados por terrível arrocho, confessaram. Primeiro ele. Canalha! Ela ainda teve a distinta lata de lhe atirar à cara o seu relacionamento com o Silveira. Mas aquilo era uma ignomínia. O Silveira não era para ali chamado. Depois as desculpas do costume. Nada. Não havia nada! Não era o que ela pensava. Mas como arrocho se avolumasse e o marido começasse a descoser-se cada vez mais, ela começou a meter os pés pelas mãos, a definhar. Mas num impulso final reergueu-se e ressuscitada, imponente e arrogante confessou. Tudo acontecera muito rápido e quando lhe quis confessar, já era tarde. Agora que se aviesse. Seriam um para o outro.

Embrulhada num manto de tristeza, veio de novo aninhar-se junto ao Silveira e despejar-lhe quanto ódio lhe ia na alma. Não tanto pelo marido, um pulha, já não novato em semelhantes proezas. Ela sim, a amiga que a enganara. Era dela que sofria a maior ofensa da sua vida. E ele, o Silveira, havia de cuidar-se…

Mas não se cuidou o Silveira. No seu íntimo, estranhamente, continuava a ver a Lúcia como a amiga de sempre, como uma deusa que deveria adorar. À medida que ia pondo na balança as justificações dos seus desejos contra uma traição a que era alheio, o Silveira via a mesma Lúcia que vira pela primeira vez, senhora dum corpo perfeito esbelto, dum olhar profundo e comunicativo, dum sorriso terno e mavioso, dona de uma postura nobre fascinante. Uma espécie de deusa que ostentava um perfil austero, ríspido e altivo e que, permanentemente, se ornava duma beleza perturbante, duma elegância aliciante e dum porte gracioso.

- Como uma deusa!...

 

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publicado por picodavigia2 às 00:44





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