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CONSUMIÇÕES

Quinta-feira, 19.06.14

Naquela tarde de sexta-feira, andava ele de um lado para o outro da sacristia em penumbra. Sentia-se cansado. Apetecia-lhe, como nunca, uma hora de sono. Nem que para isso tivesse que se deitar nas escadas do altar-mor... Mas qual quê? Havia de haver sempre uma alma a precisar fosse do que fosse. E ele que não era capaz de se negar a um pedido, viesse de quem viesse, e a qualquer hora. Para mais, e agora que a festa da padroeira se aproximava, faltara-lhe o único seminarista, desistido, já quase no fim do curso, e embarcado por terras do continente. E eram confissões, batizados, missas, enterros, casamentos... Uma eternidade de serviços e biscatos do ofício em tudo o que era curato e paróquia onde faltava padre. A somar a tudo isso (ou diminuir, que ele já andava confuso na matemática do compromisso) eram também as aulas no ciclo, para garantia da reforma e fuga à rotineira Ali estava, desacrescentando, do frenesim em que constantemente vivia, uns minutos para reflectir sobre o que iria dizer nas missas de domingo. Para sua própria desconsolação, nunca se habituara a falar de coração. Sempre o maldito papel a segurar-lhe, pelo colarinho, os entusiasmos. Desde o  domingo em que proferira a primeira homilia, apoderou-  -se dele uma  preocupação medrosa que o tem obrigado a preparar por escrito tudo o que diz aos crentes. Do púlpito abaixo, claro. Que, cá fora, as palavras conversadas com o povo vestiam paramentos de outra tonalidade. Mas, enfim. Lá teria que ser, e o tem-que-ser tem muita força, como lhe dizia um velho amigo. Não fosse o diabo tecê-las, e o bispo acabar por chamá-lo à pedra, e, por via disso, ele, padre-pedro-pedra-pomes (Gostava de se chamar assim, por motivos e razões muito suas.), vir a despir a sotaina. Pelo que, era mister sentar-  -se, e escrever a prédica para o fim de semana que aí estava. Mãos entrelaçadas por detrás da nuca, deu mais duas voltas à sala. Encostou a porta que dava para a capela do Sagrado Coração. Fechou-se no escritório. Porém, o sossego tão apetecido foi sol de pouco dura. Com efeito, ainda mal se sentara à secretária, e já o sacristão batia à porta para o avisar de que ia mandar entrar os primeiros rapazes da comunhão solene que começavam a chegar para a preparação. Diabo, que era verdade! Tinha-se esquecido. Era isso. Andava com muita coisa na cabeça. E, numa toada de quase queixume, pediu ao Ti João que os fosse enxotando para dentro. E agora? O que é que iria dizer à garotada? Lembrou-se de que lhes tinha prometido responder, nesta última sessão preparatória, a uma das muitas perguntas que a miudagem lhe fazia e que, por regra, só tinham a ver com  a verdadeira e real humanidade de Jesus. Choviam questões sobre se Nosso Senhor tinha irmãos, primos, tios. E tinha padrinhos? Eram ricos? Qual era o emprego dele? São José era carpinteiro – isso tinha ficado assente. A mãe não podia ser outra que não a do Menino Jesus. E, o que é que ele comia? Com quem brincara em pequenino? Quem é que lhe tinha arranjado o nome. E que o sô padre Pedro lhes explicasse melhor aquela de Jesus, que era Deus todo-poderoso, nem sequer ter tido um buraquinho para morar com os apóstolos. Então ele não tinha casa? Um puto mais espertalhote até lhe atirara com a difícil questão de os melrinhos do céu terem os seus ninheiros, e Jesus, coitadinho, andar sem eira nem beira. O sô padre Pedro queria então dizer-lhes que Nosso Senhor andava ao deus-dará nas ruas da Terra Santa? Tinha que lhes responder a tudo isso para que não minguasse a pouca fé que já por alí abundava. Com um sorriso condescendente para consigo e a maltinha nova, afastou para o lado toda papelada, ali ao monte, a pedir despacho. Empurrou a cadeira. Curvou-se um pouco mais, até que a cabeça poisou sobre a secretária. Ia-lhes falar sobre a casa, sobre as avezinhas do céu com seus ninhos. E, no silêncio dos santos e das trindades, cansado, cerrou os olhos...

 

J.F.Costa

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publicado por picodavigia2 às 19:24





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