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“CORIS JULIS” OU “O PEIXE QUE O GUILHERME ENGOLIU”

Quarta-feira, 19.09.18

O Guilherme era, incontestavelmente, um exímio pescador. Sem tirar nem por, um dos melhores da Fajã! Pescador de pedra, diga-se em abono da verdade. Caniços de todos os tamanhos, formas e feitios, engodo e iscas do bom e do melhor e até anzóis com comprimentos diversos mas adequados a cada tipo ou espécie de peixe a cuja pesca pretendia dedicar-se. A casa chegava de tudo o que havia no mar e que fosse possível apanhar em qualquer pesqueiro da Fajã, mesmo nos mais arrojados e perigosos: vejas, sargos, salemas, castanhetas, bodiões, peixe-reis, rateiros e até polvos e moreias. Chegara mesmo a apanhar meia dúzia de bicudas na Ponta do Cais, duas ou três enchovas na Baía d’Água e uma serra por fora da Poça do Cobre.

Pese embora o que trouxesse chegasse para as encomendas lá em casa e até, por vezes, para presentear vizinhos e parentes mais chegados, o Guilherme queixava-se, frequentemente, junto do seu progenitor, de que afinal trazia aquilo tudo mas até podia trazer muito mais, talvez mesmo o dobro se... E explicava a medo:

- É que uma grande parte do que isco e puxo para terra se perde! Volta para o mar…

- Como? Quando? – Perguntava o pai assarapantado.

- Ora quando? Na altura em que puxo o peixe para terra. Quando vou tirar os malditos do anzol e colocá-los numa pequena poça, ou em cima duma pedra os atrevidotes “zip”, dão um salto e “zás-trás”: atiram-se para o mar.

Certo dia o pai, farto de ouvir tantas lamúrias e queixumes, atirou-lhe de rompante:

- Fogem porque tu deixas, porque és um palerma, um parvo, um desajeitado. Um bom pescador, logo que apanha um peixe, mata-o imediatamente. Sabes como? Dando-lhe uma dentada na cabeça e pronto. Assim que apanhares um peixe dá-lhe uma valente dentada no cachaço e vais ver que nunca mais te foge nenhum.

Dito e feito. O Guilherme não se fez rogado. No dia seguinte lá se foi rápido e prazenteiro, de caniço em riste, aperaltado com isca e engodo em quantidade suficiente, plantar-se no melhor pesqueiro que havia, ali para os lados do Poceirão, junto ao Calhau da Barra. Engodo para água, caniço aparelhado, isco no anzol e vamos a isto, que hoje não lhe havia de zarpar para a água um que fosse dos que houvesse de puxar para terra.

Eis senão quando sente a primeira ferrada. Leve mas firme. Peixe pequeno. Melhor, para se iniciar na nova forma de amansar definitivamente os espertalhotes. Puxou, puxou e zás. Um peixe rei, lindo de morrer, com as cores do arco-íris, mas pequeno e perfeitamente adequado à sua bocarra. Melhor para exercitar os maxilares não podia ter vindo!

- Este não me escapa! – Pensou o Guilherme com os seus botões.

Se bem o pensou melhor o fez. Zumba! Dentada na cabeça do peixe. Só que fê-lo com tanta avidez e sofreguidão que o dito cujo já de si húmido, escorregadio e pegajoso deslizou-lhe de imediato pela boca dentro, passando-lhe, vivinho da silva, pelas goelas abaixo, indo parar-lhe ao estômago, onde encontraria o seu fim, sem, no entanto, antes, não dar lá dentro umas valentes cambalhotas e uns angustiantes repelões no “bucho” do Guilherme que muito o agoniaram, provocando-lhe náuseas e enjoos, forçando-o a suspender de imediato a pescaria, cuidando que morria ali mesmo. Aos gritos e aos arrotos lá conseguiu voltar para casa sofrendo as injúrias mais atrozes e descabidas do seu progenitor e os vitupérios mesquinhos e trocistas de quantos se cruzaram com ele pelo caminho.

E não é que a partir de então o peixe rei, na Fajã, mudou de nome, passando a chamar-se “O Peixe que o Guilherme engoliu” e, muito provavelmente, Lineu, se tivesse vivido uns anos mais tarde, em vez de o nomear de “Coris Julis” ter-lhe-ia chamado muito simplesmente “Engolatis Guilhermis”.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:06





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