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DESCANSO LABORIOSO

Sábado, 21.05.16

“Enquanto se descansa ajunta-se o cascalho.”

 

Interessante adágio que espelha em plenitude a árdua e cansativa vida de trabalho a que estava sujeito o povo da mais ocidental freguesia açoriana. Na verdade, na Fajã Grane, em tempos idos, o trabalho era tão intenso e as atividades agrícolas tão exigentes que mesmo quando se descansava era imperioso trabalhar, realizando, é verdade que atividades mais leves, mas necessárias à vida agrícola e que neste adágio estão personificadas no simples ato de juntar o cascalho existente nos terrenos agrícolas e que era imperioso retirar pois era prejudicial ao cultivo do milho, das batatas, das couves e de todas as outras culturas.

Embora a Fajã Grande possuísse bons terrenos agrícolas, em muitos deles havia muitos pedregulhos misturados com a terra. Sabe-se que desde o início do povoamento o povo foi limpando os terrenos que pretendia cultivar e colocando quer o cascalho quer as grandes pedras que ia retirando do solo num canto do terreno, formando assim os tradicionais maroiços que, nas Flores, ao contrário de outras ilhas, serviam para o cultivo de figueiras e de parreiras, cujos figos e uvas eram muito apreciados.

Meu pai tinha um serrado no Porto, onde semeava milho, batata-doce e couves. A sul deste serrado e já na fronteira com o lugar da Caravela, o serrado tinha um grande maroiço. Para além de belas parreiras existiam ali duas grandes figueiras, uma de figos pretos e outra de bacorinhos. Em altura da safra, quando lá ia, deliciava-me quer com as uvas quer com os figos. Mas como o meu maroiço do Porto, existiam muitos outros maroiços, sobretudo nas Furnas, no Areal, o Porto, no Mimoio e em muitos outros lugares da freguesia onde havia terras de cultivo, o que significava que muito cascalho havia sido junto e muito ainda haveria de se juntar. Assim este adágio tinha grande sentido pois, assim como se deviam aproveitar os momentos de descanso do trabalho agrícola para ir limpando o terreno e ajuntando o cascalho, atirando-o para cima do maroiço, devíamos aproveitar todo o tempo para realizar pequenas tarefas pois a ociosidade, ontem como hoje, é a mãe de todos os vícios.

Para a combater havia pois que se ajuntar cascalho e atirá-lo para cima dos maroiços.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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