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ÉCLOGA DOLENTE

Quinta-feira, 16.01.14

Aos anos que partiste (16 de Janeiro de 1966) mas ainda hoje persiste, na minha memória, a tua imagem: o enrugamento rúbeo das faces, a tez escurecida, o olhar aparentemente distraído mas persistente e apreensivo, rosto macilento, mascarado de boa-disposição quando, afinal, bem lá no teu íntimo, havia mágoa, sofrimento e dor em demasia. As tuas palavras eram raras, por vezes, até, mal pronunciadas e irreverentes mas sempre seguras, eloquentes, destemidas e verdadeiras, sobretudo, verdadeiras. O teu pensamento, muitas vezes, como que voava e se esvaía por entre horizontes perdidos e desfeitos, mas acarretavas, permanentemente, na memória, o “encanto” dos teus dias, (se não me entenderes esclareço que me refiro à minha mãe) tão precocemente arrancado do teu e do nosso quotidiano. Para ti, para mim e para os outros cinco fingias estar bem, mas todos sabíamos, que carregavas aos ombros, uma mágoa demolidora, uma dor aniquilante, um tormento desolador que mais tarde havia de destruir-te por completo, exterminar-te totalmente, deixando-nos sós, numa enorme desolação. Para todas as nossas perguntas tinhas sempre uma resposta, mesmo que fosse repleta de silêncio mas sempre motivadora e corajosa. Sei que te ufanavas de estar ao nosso lado e se, por vezes, te escondias ou afastavas, sozinho, era para não vermos as lágrimas que, abundantes, te corriam dos olhos e a melancolia que te ornava o peito. Esse teu optimismo mascarado consternava-me, porque eu sabia que não te conformavas com o nosso destino, que preanunciavas o nome das estrelas com temor e cuidavas que, em cada noite, o seu brilho se ia desvanecendo. Não soubeste, afinal que as estrelas, apesar de eternas, são empurradas pelo vento que, acicatado pelas nossas angústias, nos sopra dentro do peito e lhes muda os rumos e estimula o brilho. Por isso ficaste deveras preocupado comigo e com os outros e desgastaste, nesse soterrar de apreensões inquietantes, a tua precária saúde. Sei que é tarde para te dizer ou lembrar tudo isto, mas roubaram-me o tempo, levando-te antes que to dissesse.

Lembro-me de que quando saías de casa logo pela manhã cedo, caminhando no frio e na escuridão, na labuta quotidiana, no que consideravas ser o teu dever, deixavas-nos quietos, sossegados, no silêncio da madrugada, para não nos desfazermos, pois cuidavas que eramos nuvens de cristal. Sozinho, levavas as rezes aos campos, rachavas a lenha no madeiro duro, lançavas a mão à enxada como quem joga os dados sobre a mesa, numa palavra, arriscavas gastar o teu suor numa esperança guarnecida de fantasia. Depois era o trato amargo do arado a rasgar regos de inconstância sobre os projectos que não conhecias mas sabias que existiam. As mãos ficavam-te calejadas, os músculos tensos, os pés inchados, os ombros, inteiriçados e até os teus olhos tornavam-se velados e perdiam aquele brilho estonteante das madrugadas de outrora em que o reboliço da juventude te devia ter enchido de encanto. Vinhas, então, acordar-nos, para ouvirmos o canto dos pássaros, saborearmos o adocicado dos frutos, sentirmos o perfume das flores e corrermos atrás do esvoaçar das borboletas.

Deixaste-nos uma nobre herança. Revejo-te nela e recordo-te quando te confrontavas com a verdade, com a lealdade, com a sinceridade e com a honestidade, apesar da pobreza nobre e digna que te abalroava o quotidiano. Contestaste a opressão, disseste não à violência e pediste aos pérfidos que abandonassem as insídias, aos intolerantes que se transformassem em crianças e aos intransigentes que, pelo menos durante um dia, espalhassem uma nesga de docilidade.

Agora estás em silêncio, longe, muito longe, no espaço e o tempo. O tempo não volta, o espaço é infinito e é impossível transformar a morte em vida ou colar o passado no presente. Agora apenas posso conservar a memória (com a agravante de ser dolente) dos tempos de outrora, que desperdicei sem ouvir com mais atenção a tua voz de silêncio eloquente, sem ver com maior rigor o teu olhar sombrio, sem te acompanhar com deslumbramento no teu caminhar ofegante. Por isso, hoje (16 de Janeiro de 2014) persiste, na minha mente, apenas a tua imagem: o enrugamento rúbeo das faces, a tez escurecida, o olhar aparentemente distraído, o teu rosto mascarado de boa-disposição.

Ah! Ficou-me também a sublime herança da tua honestidade!

 

A morte pode acabar com a vida e creio que acaba mesmo, mas não desfaz a memória dos que partiram, muito menos a memória de um pai.

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publicado por picodavigia2 às 12:04





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