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EMIGRAÇÃO CLANDESTINA

Quinta-feira, 23.10.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta ainda se se recordavam e contavam muitas estórias de fugitivos que, partindo da freguesia, clandestinamente e correndo graves riscos, embarcavam em baleeiras americanas que demandavam a ilha na procura de água, de víveres e de baleeiros, partindo, assim, para a América, numa estranha e não menos arriscada aventura. De facto, nos finais do século XIX, muitos habitantes da Fajã Grande como de toda a ilha das Flores, embarcaram, às escondidas da noite e clandestinamente, viajando nas baleeiras americanas às quais pagavam a viagem até à costa leste dos Estados Unidos, com o seu trabalho diário a bordo e eram deixados à sua sorte, mal encontrassem a terra do Tio Sam, onde cuidavam que o ouro corria a jorros. Na Fajã Grande, a fim de que a fuga não fosse detetada pelos militares que vigiavam nos vários fortes, fugiam durante a noite, escondendo-se nas margens das ribeiras. Quando os marinheiros desciam com vasilhames carregados de água, os fugitivos, imitando-os, seguiam-nos e aproveitavam para escapulir nas chatas, muitas vezes sob os tiros dos militares, que, embora tardiamente, se apercebiam da marosca. Eram aceites a bordo como marinheiros, trabalhavam como escravos e as viagens demoravam meses, por vezes, quase anos, uma vez que as baleiras tomavam rumos diversos, aproveitando as viagens para a caça aos cachalotes e baleias.

Uma vez chegados à costa leste americana, onde desembarcavam seguiam o seu destino, por sua conta e risco. Muitos, levados pelo sonho do ouro, demandavam a costa oeste, atravessando o continente americano de lés-a-lés, até chegar à Califórnia. Aí, cerceado o sonho do ouro, tornavam-se pastores na serra de Nevada, agricultores no Vale de São Joaquim, operários nas obras dos portos e das pontes de São Francisco ou na edificação da cidade do Fresno e de muitas outras urbes da Califórnia. Apenas um grupo, mais afoito e audacioso, partia para o norte, na procura de trabalho nas minas, sobretudo nos condados de Siskyou, Del Norte e Modoc.

Sabe-se hoje, que esta aventura americana marcou uma geração de habitantes da Fajã Grande, influenciando usos e costumes e até o falar da freguesia. Uma dessas influências terá sido na caça à baleia, pois foram estes homens, após regressar dos Estados Unidos, ou os seus descendentes transformaram a Fajã Grande no maior e mais importante local de caça à baleia, depois das duas vilas: Lajes e Santa Cruz. Na verdade, a Fajã Grande foi terra de grandes baleeiros, sobretudo marinheiros e trancadores, porquanto os oficiais, geralmente, eram importados do Pico. Embora a época da caça à baleia se verificasse apenas nos meses do verão ela modificou a vida e os costumes da população, assim com a sua muito fraca economia, reduzida a uma simples agricultura de subsistência e à criação de gado, em muito pequena escala.

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publicado por picodavigia2 às 21:12





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