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ENTRE DUAS LÁGRIMAS

Segunda-feira, 13.04.15

Foi na segunda aula. Não pudera comparecer à primeira. Quando o professor deu os trabalhos por terminados e ordenou que saíssem, ela veio, junto dele, desculpar-se. Embora revelasse um certo nervosismo, a cara acetinada, o rosto macio e os olhos muito esverdeados e brilhantes atordoaram o mestre. Tanta beleza consubstanciada num olhar perturbaria os menos sensíveis. Era nova, bonita, alegre e de sorriso comunicativo. Revelava uma doce sublimidade disfarçada de encanto. Emanava uma elegância discreta e natural, uma beleza rara, consubstanciada na sua essência. Um êxtase! Um arrebatamento! O mestre pasmou! Embeveceu-se. A sua íntima ternura, a exuberância do seu encanto, o deslumbramento das suas palavras atiçavam-no, pela primeira vez, para um trágico beco de inquietação e perplexidade. Quase perdia a respiração.

Havia acompanhado, anos após ano, dezenas, talvez centenas de alunas, belas, atraentes, sedutoras. Mas como aquela… Nunca. Havia qualquer coisa que medrava nela e que o destronava da sua fulgurante e presunçosa dignidade de mestre. Crescia-lhe na alma uma espécie de tempestade, uma indomável turbulência que lhe toldava a serenidade, lhe ameaçava ruir o decoro e o ornava de um suplício atroz mas dulcificado. Desconhecia, porém, a grandeza e a profundidade da paixão que, momentaneamente, se lhe cravara no peito e o arrasava, petrificava e projetava para um mundo a que era totalmente alheio. Nem consciência tinha do mal inequívoco que, muito provavelmente, se havia de atrelar a tamanha loucura, nem das trágicas consequências que o desabrochar de um envolvimento, embora ainda inexistente mas previsível, lhe havia de acarretar.

Anestesiado pelo quadro que se lhe deparara, aceitou as desculpas com palavras e gestos demasiadamente comprometedores dos sentimentos que o atordoavam, e que não podia ocultar. Ela, astuta e capciosa, percebeu, reservando, em redoma dourada, os trunfos que o destino, gratuitamente, lhe disponibilizavam. Mas ao sair voltou-se e, momentaneamente, como que se arrependeu dos seus vis e desleais devaneios. Nunca havia de jogar, em seu triunfo ou provento, os dons vantajosos que lhe eram oferecidos, sem nada ter feito ou muito menos lutado para os conseguir. Ele, na verdade, revelava-se bondoso, meigo e digno. Não merecia qualquer maléfico cometimento. Até lhe doía deixá-lo ali, sozinho, emaranhado em tão malévolo suplício. Tinha consciência perfeita de que, ao afastar-se, o deixaria amofinado de angústia, de inquietação, a rondar o desespero. O mestre que o acaso lhe disponibilizara, revirava-se, sozinho, sobre um reboliço de emoções contraditórias. Subtis modificações domavam a sua mais simples expressão. Mas era um homem de decisões fortes, de oposição a tentações, perito em dignidade. Havia de transfigurar, embora muito a custo, toda aquela enxurrada de emoções, desejos e vontades. Havia mesmo de obstruir uma paixão que, eventualmente, despontava. Mas naquele momento o confronto entre a iminência de uma tremenda paixão e a excelência do seu profissionalismo acossavam-lhe o destino. Lançava-o num drástico e pérfido paradigma. O que o coração sentia sem o domar, o que a paixão lhe ditava sem o servilizar estava ali tenebroso e incerto. Arrumou, muito a custo, a secretária, enfiou alguns livros e papéis na pasta, retirou a gabardina de um cabide que havia nas traseiras da porta e saiu. Pouco depois rumou a casa, confuso, perturbado, emerso em dúvidas e remorsos. Nem uma sombra de indignidade poderia macular a sua arrebatante, credora e austera reputação de mestre.

Na manhã seguinte bateram-lhe, levemente, à porta do gabinete. Era ela! Vinha mais bela, mais sublime, mais elegante e mais perfumada. O mestre tremeu! Não... Seriam apenas amigos, partilhariam aquela amizade possível, aceitável, entre discípula e mestre, obstruída a aventuras escaldantes. Seriam escravos de um amor impossível, duma intimidade limitada, de um envolvimento inexequível. O relacionamento que as exigências profissionais lhe impunham, bloqueavam-lhes os sentimentos. Fechavam-se as portas duma intimidade frenética, luxuriante, louca. Gostavam um do outro, não apenas como mestre e discípula. Como homem e mulher. Como companheiros de jornada, parceiros de destino. E ao despedir-se, ela nem hesitou por um momento. Cumprimentou-o de beijo. Ao sentir-lhe a pele macia, o rosto harmonioso, o perfume dulcíssimo, o mestre voltou a tremer. De imediato, romperam-se todas decisões, rasgaram-se todas as cortinas, ruíram todos os diques de resguardo, que insensivelmente havia, por momentos, construído, na mira de ir afastando, como coisa conspurca, imunda e contagiosa, a paixão que crescia avassaladoramente, dentro de si e que o denunciava. Os outros é que não se compadeceram nem descuidaram. Juntando em puzzle todos os tremeliques e salamaleques que o mestre descortinava sempre que via a moça e anexando as frequentes idas desta ao gabinete, acusaram, julgaram e condenaram sem complacência. Fizeram correr de ponta a ponta da escola que aquilo era suspeito. Ali havia gato. Era por mais evidente! Pérfido, corrupto, assediador, tarado! Haviam de cuidar-se as outras. E, abruptamente, da noite para o dia, o mestre defrontou-se com o seu prestígio beliscado, excomungado, olhado com reservas. Durante algum tempo, navegou em marés de cuidados e precauções. Nenhuma atitude, palavra, gesto ou olhar que o comprometesse. Por fim, decidiu libertar-se. Que se lixassem as suspeitas e quem as lançava. Que se tramassem as condenações e os linchamentos morais. Que se fodessem os deturpadores da honra alheia. A moça estava ali, a seu lado, todos os dias. Era impossível resistir-lhe. Tinha coração de homem. Afinal, as emoções, os afetos e os sentimentos iniciais nunca se haviam desfeito. Apenas os suspendera para evitar um previsível serrabulho. Não o conseguira. Não havia continuar a mortificar-se. Era por demais evidente o que sentia. Qualquer tentativa de o esconder sairia gorada. Os outros tinham razão. Mas nada fizera que merecesse ser julgado e condenado em praça pública.

Em vez de continuar a fingir, começou a navegar numa felicidade empolgada, delirante, plena de emoções. Nas aulas, nos encontros, nas reuniões, nas visitas que ela lhe fazia empolgava-se cada vez mais. Ou da força que a aproximação dela lhe transmitia, ou da condescendência das suas atitudes, por vezes, imaginava, sentia e cuidava de verdade que ela também o amava. Isso por um lado tranquilizava-o, mas por outro empolgava-o mais e concedia-lhe um misto de excitação, de tentativas de se entregar a ela. Florescia em deslumbramento, aliava-se à transcendentalidade, navegava uma alegria perene e dignificante. Aquele ano letivo havia de ser único e inolvidável. Seria consagrado como epílogo da doçura, do encanto, do enfeitiçamento. Havia de guardar em arca e marfim um papiro com o registo da suavidade daquela ternura, da sublimidade daquele estranho envolvimento. O ano do triunfo e da glória em que quebrara, corajosamente, as invisíveis amarras que o prendiam a um estúpido estatismo amoroso. Gafado, mostraria, aos que haviam espoliado a sua dignidade, a força de se encharcar numa avassaladora paixão. Ela seria inevitavelmente sua. Não abafaria mais os rugidos das suas delirantes emoções.

Despertou. Uma estranha mudança se operara nas atitudes e nos gestos dela. À medida que o tempo passava e que ano letivo se aproximava do fim, parecia aconchegar-se mais no empolgamento dos seus encantos. Tornava mais evidente, aquela estima que o mestre cuidava ser amor. Correspondência. Enlevava-se, cada vez mais, o mestre enquanto ela como que se anestesiou-se das exigências da excelência profissional. Alienou-se do rigor científico. Navegou num mar de superficialidade cuidando que o mestre, por embevecido, dormia.

No gabinete, sobre a secretária, caíram-lhe resmas de pastas, recheadas de tratados, de ensaios e de trabalhos de pesquisa, a maioria, roçando a superficialidade e a frivolidade. Relatórios sem fim! Uns melhores, outros piores. Tinha que os ler todos. Chegou ao dela. Arrepiou-se. Instintivamente, cuidou que estaria galvanizado pela sua dignidade, pela superioridade e pela excelência que, cego pela paixão, lhe empastara. Havia de o valorizar ao máximo. Ao primitivo delírio emocional sucedeu-se um grito de revolta pungente. Não tinha memória de semelhante miséria. Só poderia ser um descuido fatal, uma imprudência alheada, a réplica dum descuido involuntário. Ela valia mais, muito mais. Entre reprová-la e o deixar-se levar pelas ondas dos sonhos passados optou por chamá-la ao gabinete. Sem se importar com os comentários dos outros que, expectantes, também aguardavam veredicto.

Sentou-a a seu lado, tentando encher-se de coragem, resistindo a todas as forças que o atiçavam em estonteante devaneio. Nunca a tivera tão perto de si. Sentia-lhe o perfume, o arfar do peito, o bafejo do respirar o refolgar da sua excitação. Por entre o degote da blusa descortinava-lhe uma nesga dos seios. Ia começar. Mas não teve coragem. Pela primeira vez, sentia-se superior, dono, senhor. E ela? Uma escrava, uma serva, uma vítima indefesa. E os outros lá fora, cochichavam, murmuravam, recriminavam, teciam vis e malévolos comentários. Alheou-se e, por fim, despindo as vestes de apaixonado, de louco, encheu-se de coragem e desabou o veredicto da verdade real. Aquilo não tinha pés nem cabeça! Era uma vergonha! Uma miséria! Revelava uma incompetência total! Absoluta! Não lhe poderia dar aval. Decerto que aquilo não era ela. Não podia ser. Descuidara-se, distraíra-se, enveredara pela frivolidade, entrincheirara-se no corredor do facilitismo, nas veredas da superficialidade. Inacreditável! Inaceitável! Inconcebível! Ela, entre um misto de desânimo e aflição. Tão cruel relatório avaliativo doía! De repente, sem que o mestre contasse ou pudesse evitar, duas lágrimas amargas, petrificadas, dolentes correram-lhe pela face amolgada. Não podia crer. Nunca se havia de perdoar. Fora o causador de tão grande e terrível sofrimento. Num misto de aflição e arrependimento, colocou-lhe o braço sobre o ombro. Ela cada vez mais debulhada em lágrimas, soluçando, recostou-se a ele. Permaneceram abraçados, num terrível e brutal silêncio, apenas entrecortado pelos soluços dolorosos e compassados que lhe saíam do peito. Pouco depois o mestre, profundamente arrependido, beijou-a. Na fronte, na face. Pediu-lhe encarecidamente que se acalmasse. Não aguentava. Ia ajudá-la, se ela assim o pretendesse. Como insistisse, ela acabou por enxugar as lágrimas e aceitar. Foram tardes e tardes, na procura contínua daquilo de que afinal ela era capaz. Melhoras, muitas. Provava-se, assim, a sua excelência em detrimento de um descuido que a complacência do mestre, porque apaixonado, lhe perdoara.

Mas quanto acordou e percebeu que chegara ao fim, que via fugir a mulher que mais amara, por quem sentira a maior paixão, desejou voltar atrás. E duas lágrimas, amargas, pérfidas, terríveis, jorraram dos seus olhos. Sentia-se inundado por uma estranha luz, que lentamente se afastava, perdendo a luminosidade, deixando escorrer, em cascata, fios leves e ligeiros, que a tornavam cada vez mais frouxa, quase irreal.

E a luz foi-se desvanecendo, dissipando, extinguindo até se apagar e desaparecer por completo.

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