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ENXERTIA DA VINHA EM SÃO CAETANO

Domingo, 23.03.14

À semelhança de muitas outras localidades açorianas, a freguesia de São Caetano usufrui de uma paisagem fortemente marcada pela prática agrícola, na qual se destaca a cultura da vinha. Na realidade, a vinha e o vinho constituem, para a mais jovem freguesia do concelho da Madalena, um importante património económico e personificam traços fundamentais da sua identidade cultural, ainda hoje registados em múltiplos vestígios associados à produção do vinho, tais como currais, girões, canadas, maroiços, muros, portais, adegas, alambiques, armazéns, lagares, prensas, barricas, etc. Muitos destes elementos, para além de caracterizarem a paisagem envolvente da freguesia, encerram um testemunho histórico remanescente de uma actividade vinícola pujante, consistente, feita com arte e sabedoria e, sobretudo, reveladora da labuta quotidiana de um povo simples, humilde, generoso e trabalhador.

Assim, desde os tempos mais remotos que o cultivo da vinha, em São Caetano, se revelou árduo, trabalhoso, difícil e cansativo, uma vez que a maioria dos terrenos destinados àquele cultivo se estendiam, quase exclusivamente, na zona mais estéril e pedregosa e de solo mais pobre da freguesia. Nesta zona, situada entre o mar e as habitações, foram, também, construídas as adegas, edifícios de apoio à produção vitivinícola que ainda hoje permanecem como baluartes duma epopeia simples e modesta mas digna e valorosa. Se às limitações e aridez do solo juntarmos as intempéries e os vendavais com que a freguesia era, frequentemente, fustigada, compreende-se melhor a necessidade de um ciclo de trabalhos contínuos e ininterruptos que o cultivo da vinha exigia, com destaque para a enxertia, tarefa minuciosa e que requeria muita técnica, efectuada, geralmente nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março.

A enxertia exigia, em primeiro lugar, o plantio dos bacelos ou seja pedaços de caules extraídos de uma videira e destinados à formação de uma nova planta. Os bacelos deviam conter entre cinco a seis olhos, ter um tamanho médio de quarenta centímetros, ficando na terra, durante cerca de um ano, a fim de criarem raízes e engrossarem. Ao adquirir a espessura considerada suficiente, o bacelo era plantado no local pretendido, cortado na parte superior e rachado, formando o “cavalo”, que havia de receber a “pua” ou “garfo”, ou seja o ramo que se pretendia enxertar. Este era escolhido e retirado das melhores e mais produtivas videiras e cortado em forma de cunha, de maneira a encaixar no “cavalo”, a casca verde de um na do outro.

Depois de introduzido no cavalo, o garfo era amarrado com filaça ou com ráfia e coberto com terra, transportada de outras zonas, uma vez que as vinhas, geralmente, se localizavam em terrenos pedregosos.

Como a maioria das vinhas era muito distante das residências, os homens levavam as suas merendas, para não perderem tempo e rentabilizarem melhor o dia, trabalhando de sol a sol.

Em São Caetano, terra de grandes e experientes enxertadores, as “idas à adega” eram muito frequentes, sobretudo, antes e depois do trabalho. Por isso mesmo, antes de irem para a enxertia os homens faziam uma passagem, pode-se dizer obrigatória, pela adega.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:54





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