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FESTA DA SENHORA DOS MILAGRES NO CORVO

Sexta-feira, 15.08.14

Hoje há festa na mais pequena ilha açoriana, o Corvo Trata-se da maior, mais importante e mais significativa festa da ilha, a festa da Padroeira, a Senhora dos Milagres. Esta é, de facto, o maior dia da ilha, dia de festa em honra da sua padroeira, que todos os anos, desde há séculos, acumula cerimónias religiosas, festejos cívicos e populares. A procissão, com a imagem da virgem, acompanhado de outras imagens e símbolos religiosos, percorre as históricas e estreitas ruas da vila, ornadas com belos tapetes de flores e verduras, feitos pelos moradores de cada rua, mas ajudados por toda a população da ilha. Relativamente à pequenina e antiga imagem da padroeira, reza a lenda que o povo do Corvo, certo dia, vendo-se impotente e sem meios para se defender de um temível e poderoso ataque de piratas, terá invocado o auxílio da sua padroeira, a Virgem Maria, nessa altura sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário e que a Virgem os ajudou a derrotar e expulsar os piratas da ilha, pois todas as balas, eram defendias pela pequenina imagem que, assim, em nada prejudicaram os corvinos. Os piratas, vendo que não conseguiam atacar e destruir a população e invadir e saquear a ilha, desistiram da peleja. Nossa Senhora do Rosário, pelos seus feitos e milagres, passou a ser chamada de Nossa Senhora dos Milagres, tornando-se no epicentro da devoção de todos corvinos. Verdade é que, para além da lenda, o Corvo sofreu, ao longo da sua história, diversas incursões e ataques de corsários e piratas. Os corvinos, entretanto, souberam, sempre, impor-se, muitas vezes, sub-repticiamente, aliando-se aos invasores e participando activamente na sua actividade. Em troca de protecção e dinheiro, a ilha fornecia água, alimentos e homens, ao mesmo tempo que permitia tratar os enfermos e reparar os navios. Sabe-se que o maior ataque se deu no ano 1587, sendo o Corvo saqueado e as suas casas queimadas pelos corsários ingleses, que antes haviam atacado as Lajes das Flores e ainda que no ano de 1632, a ilha sofreu duas tentativas de desembarque de piratas da Barbária, no local do actual cais Porto da Casa, que na altura ainda era apenas uma baía. Duzentos corvinos usaram tudo o que tinha ao seu dispor para repelir os atacantes que acabaram por desistir com algumas baixas. Cuida-se que a lenda sobre a presumível ajuda da imagem da Virgem se relacione com este ataque, uma vez que durante o mesmo, a imagem de Nossa Senhora do Rosário foi colocada na Canada da Rocha, donde terá protegido a população local das balas disparadas dos navios piratas.

Para além dos cerca de quatrocentos habitantes da ilha, participam, habitualmente, nesta festa muitos forasteiros e visitantes, vindos, sobretudo, da vizinha ilha das Flores que aproveitam a ocasião para apreciar as belezas e a quietude da pequenina ilha.

A música ecoa pelas encostas e ravinas, a Filarmónica local e uma ou outra vinda das Flores, onde hoje existe apenas uma, a da Fajazinha e anima a festa, assim como os demais concertos que fazem parte do programa.

O Corvo, neste dia 15 de Agosto, celebra de facto a grande festa da sua Padroeira, festa que se estende e prolonga por uma semana, durante a qual é celebrada a novena, havendo, na véspera, a tradicional Procissão de Velas. No dia 15 é a missa solene, seguida de uma ancestral e já tradicional procissão, durante a qual muitas pessoas, da ilha e de fora, pagam as suas promessas, em virtude de graças obtidas por intercessão de Nossa Senhora dos Milagres. A igreja, onde se venera a Virgem, a única existente no Corvo, é a substituta do primeiro templo erguido na ilha e que seria uma simples ermida, de pequenas dimensões, na qual os corvinos cumpriam o seu preceito Pascal, para o que se deslocava ao Corvo, anualmente, pela altura da Quaresma, um clérigo da vizinha ilha das Flores. Esta ermida foi destruída durante a incursão de piratas da Barbária à ilha, em 1632, a partir da altura em que a imagem de Nossa Senhora passou a ser referida como Senhora dos Milagres. No entanto, em 1674 o lugar do Corvo foi elevado a paróquia. Nessa ocasião cuidou-se de erguer uma igreja paroquial, dedicando-a a Nossa Senhora dos Milagres e dotando-a com um vigário, um cura e tesoureiro. O actual templo foi reedificado em 1795, sendo consumido por um violento incêndio em 1932, no qual se perderam riquíssimas alfaias. Salvou-se, entretanto, a imagem de Nossa Senhora dos Milagres, que a tradição refere ter sido encontrada no mar. O templo foi restaurado em seguida. Trata-se de um edifício erguido em alvenaria de pedra rebocada e pintada de branco, à excepção do soco, dos cunhais, da cornija e das molduras dos vãos, pintados de cor cinzenta. Na fachada principal, de frontaria simples, destaca-se um portal axial encimado por uma moldura. No interior desta existe uma placa de pedra com a data de "1795", data da primeira construção, ladeada por duas janelas. É rematada por um frontão encimado por uma cruz em pedra. A cobertura apresenta-se com duas águas e coberta por telha de meia-cana de produção industrial. No exterior, pelo lado direito ergue-se a torre sineira, de planta rectangular. Nela se rasgam os vãos do campanário em arco de volta perfeita, e é encimada por um coruchéu facetado com pináculos sobre os cunhais. Internamente apresenta uma única nave, dotada de sacristia e de um baptistério localizado do lado da epístola. O púlpito encontra-se localizado do lado do Evangelho. Ao fundo da nave encontram-se dois altares, um sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo, o do lado do Evangelho e outro do Sagrado Coração de Jesus, este do lado da Epístola.

A imagem da padroeira é Nossa Senhora dos Milagres, de origem flamenga, e remonta ao século XVI. De acordo com a lenda local, a pequena imagem foi encontrada no mar. Destaca-se pelo seu talhe e pelos magníficos adornos com que foi dotada ao longo dos séculos: coroa e rosário de ouro, capas e mantos de seda recamados de ouro.

Em meados do século passado, quase todos os anos, por altura da Festa da Senhora dos Milagres, partiam de varias localidades das Flores, lanchas com peregrinos, geralmente acompanhadas de uma Filarmónica para participar na mais importante e maior festa da ilha vizinha. Uma dessas lanchas partia da Fajã Grande, pois muitas pessoas tinham os seus amigos e “conhecidos” no Corvo, em casa de quem se hospedavam. Corria o ano de 1942. Muitos peregrinos da Fajã decidiram, mais uma vez ir ao Corvo, à festa da Senhora dos Milagres, fretando o gasolina “Senhora das Vitórias”, conhecida pela “Francesa”. Partiram, na tarde do dia treze de Agosto, com algum atraso e a embarcação chegou ao Corvo, já noite escura. Ao aproximar-se da ilha, o mestre viu uma luz em terra e, cuidando que era o pequeno farol que indicava o porto, rumou a terra. Infelizmente a luz não era a do farol, nem o porto era ali e “A Senhora das Vitórias” enfiou-se, precipitadamente e de rompante, sobre as baixas dos Laredos, abrindo um enorme rombo a meio, enchendo-se de água e provocando grande pânico entre os passageiros. A confusão foi geral, a precipitação tremenda e o terror gigantesco. Não havia luz alguma, por ali perto, cada qual procurava salvar-se e salvar os seus familiares que a muito custo encontravam ou nem chegavam a encontrar, acabando por perder a vida neste acidente dezasseis passageiros e ainda um dos proprietários da embarcação. As autoridades e os responsáveis pelos destinos da ilha, com os limitadíssimos recursos e meios de salvamento que dispunham, tentaram recolher os náufragos e prestar auxílio às vítimas. O local, porém, era longe do povoado e de difícil acesso. Os meios de transportes nulos e os náufragos, quer os mortos quer os vivos, foram transportados a ombros. Havia apenas um médico na ilha. Após muito esforço conseguiram levar os mortos para a Casa de Espírito Santo do Outeiro, onde foram estendidos no chão, sem lhe serem prestados os primeiros socorros, não sendo, provavelmente, assistidos da melhor forma.

A festa da Senhora dos Milagres do Corvo de 1942 e o desastre que a antecedeu, ainda hoje perdura na memória de todos os que demandam a mais pequenina ilha açoriana, neste dia em que festeja a sua padroeira, a Senhora dos Milagres.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:55





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