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FOLGAS E PASSEIOS

Sexta-feira, 28.03.14

As quintas-feiras e os domingos eram dias diferentes dos restantes, uma vez que, nem num nem noutro destes dias, havia aulas. Era também na manhã destes dias, com maior destaque para as manhãs de domingo, que os alunos de São Miguel recebiam as visitas dos seus familiares. Embora estas se realizassem durante as horas de estudo que preenchiam as manhãs, constituíam momentos de grande agitação e reboliço na casa. Para além do convívio, do matar saudades, do rever familiares e amigos, os alunos de São Miguel ainda eram obsequiados com cestas de fruta, frascos de doce, pacotes de bolachas, biscoitos, malassadas e muitas outras vitualhas. Geralmente levavam-nas para o refeitório e repartiam-nas com os das outras ilhas, sobretudo com os colegas do lado. O Manuel Faria e eu éramos abastecidos com os fartos mananciais pantagruélicos que traziam os familiares do Lima Oliveira, do João Carlos, do Gualter e, sobretudo, do Jorge Nascimento e que até incluía frascos de “malagueta” moída e em pasta, vindos sobretudo das zonas rurais da ilha, com que barravam o pão como se fosse doce, mas que nós, os das outras ilhas, rejeitávamos por não estarmos habituados àquele petisco, devido ao acentuado picante que continha. Parecia que nos “queimava” a boca. Era também nas manhãs das quintas-feiras que, de vez em quando, se realizavam os passeios grandes. Transportados em camionetas, percorríamos uma boa parte da ilha, visitando a Lagoa, a Ribeira Grande, as Sete Cidades e as Furnas. Nos domingos festivos ou por altura das grandes solenidades e no dia de São Sebastião, deslocávamo-nos até à igreja Matriz, a paróquia a que pertencíamos, assistindo à missa e a outras celebrações litúrgicas. Para além do pároco e de dois curas, acorriam ali muitos outros sacerdotes já reformados, velhinhos e residentes em Ponta Delgada. Foi aí que pela primeira vez vi um cónego e um monsenhor: o senhor Cónego Pereira, uma das mais proeminentes e cultas figuras da igreja açoriana e monsenhor José Gomes, na altura ainda reitor do Santuário de Santo Cristo.

O que mais me alegrava nestes dois dias da semana eram as tardes, porque eram as únicas vezes que saímos de casa durante a semana, pese embora o tivéssemos que fazer trajando fato preto e gravata. Mas eu adorava as tardes destes dias porque eram destinadas a agradáveis e belos passeios pela cidade e arredores. Seguíamos, acompanhados por um dos prefeitos, pelos passeios das ruas, sempre em fila, até ao Relvão, ao Jardim António Borges, ao Alto da Mãe de Deus, ao Campo de São Francisco, à ponta da Doca, a Santa Clara, à Fajã de Baixo e, por vezes, ao campo Marquês Jácome Correia para assistir aos jogos de futebol, do campeonato de São Miguel. Ao chegar ao local de destino, a “bicha” era desfeita e assim tínhamos oportunidade de conversar e brincar todos, uns com os outros, embora, o Manuel Faria, o Jorge Nascimento, o Lima Oliveira e eu abdicássemos do desfazer-se da dita cuja, acabando, geralmente, por continuarmos juntos, por já termos criado hábitos de permanência conjunta. O Jorge Nascimento porém, parava com muita frequência, aqui e além, o mesmo acontecendo com o António Filomeno, com o Gualter e com alguns outros. É que sendo eles naturais da cidade de Ponta Delgada, muitas pessoas que se cruzavam na rua connosco conheciam-nos e paravam para falar com eles. Eu invejava-os de sobremaneira por isso, e voltava a entristecer-me, por não ver ninguém da Fajã com quem pudesse falar e saber o que por lá se passava.

Antes do regresso ao Seminário, os passeios terminavam geralmente com um percurso pela avenida marginal, durante o qual me deleitava a apreciar todo o movimento de entrada e saída de embarcações na doca. E quando entre elas aparecia o Carvalho era um momento único, inesquecível de grande alegria e deleite para mim.

De regresso a casa e, depois de retirarmos e arrumarmos o fatinho preto e a gravata, estes dias continuavam iguais aos outros, com os momentos de oração habituais e as horas de estudo destinadas a preparar as aulas do dia seguinte. Apenas o jantar nestes dias era diferente. É que sendo também a quinta e o domingo as tardes de folga dos cozinheiros e empregados, era-nos servido apenas pão, chá e queijo, o que para mim era excelente.

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publicado por picodavigia2 às 07:39





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