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GAZELA

Sexta-feira, 29.06.18

Os suspiros matinais eram um estorvo, um empecilho, dir-se-ia uma espécie de sufoco atiçado ao vento, sem convicção, sem vivacidade e sem comprometimento. Uma espécie de martírio, mas um martírio gratificante, sensível e bem delineado. No horizonte perplexo e indefinido, apenas e somente, uma gazela, uma gazela sem asas, mas veloz como o vento e rápida como o pensamento. Corria deslumbrante e perturbadora, nas madrugadas ainda pouco clareadas, por vezes sem luz, muito antes de nascerem aqueles suspiros sufocantes, estilhaçados, a tingirem-se de pranto, a perfumarem-se de temeridade, imersos, definitivamente, numa estranha e perversa mortalha de perplexidade. Gazela das madrugadas, a deslizar por veredas inverosímeis, por ruas desertas, a açular-se em enigmas perfumados, sibilantes, loiros, a provocar encantos maviosos e a verter murmúrios silenciosos, disfarçadamente suplicantes. Mas o arfar das madrugadas era dolente, aflitivo, quase aniquilador.

Depois, a gazela das madrugadas escuras entrava na floresta, ora ocultando hesitações ora lançando-se em êxtases céleres, a sulcar as veredas sinuosas, onde vento soprava com uma intensidade intempestiva, desfazendo neblinas, solidificando sentimentos, imergindo-se em metamorfoses e suplícios, libertando anseios tempestivos. Cada vez mais veloz e voadora, a gazela! Gazela das árvores floridas, dos pântanos a abarrotar de folhas de nenúfar, dos caminhos ermos com as paredes enegrecidas pelos sonhos incoerentes das nuvens, correndo junto às margens de um rio de águas cinzentas.

Perdia-se na floresta, a gazela dos encantos repressivos, mesmo sabendo que o rio estava ali ao seu lado, que podia navegar nas suas águas, caminhar ao longo das suas margens, atravessar as suas pontes, talvez mesmo ouvir o cantar sibilante e dolente das árvores circundantes. Mas limitava-se apenas a atravessar a floresta, veloz como o vento e rápida como o pensamento, esta gazela com o destino preso por um sufocante raio de luz.

Gazela sem rio, sem floresta, sem árvores, sem ruas mas a abarrotar de desejos indefinidos, de aspirações misteriosas, de vontades inexpressáveis!

As madrugadas não eram contínuas, nem sequer sustentáveis mas tinham o sabor acre das noites claras, possuíam o perfume amarelado dos arraiais em festa e alvejavam-se em ondas sonoras de sentimentos adormecidos.

Gazela intrépida e voadora, gazela dos desertos e das cavernas, das florestas e dos bosques, dos rios e das madrugadas. Incoerente, altiva, corajosa, ousada e afoita! Gazela sem medos, sem receios, cuidando que o destino nunca havia de lhe cravar as garras implacáveis, funestas e aniquiladoras.

Mas um dia nefasto, incongruente e destruidor, chegou! Gazela ferida, presa, sem destino, atingida pela crueldade de um caçador, a cercear os inesgotáveis encantos das suas velozes corridas pelas madrugadas e a confundir e a aniquilar, para sempre, os inesgotáveis e inconsequentes suspiros matinais.

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