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HÁ SEMPRE UM LEITOR DESCONHECIDO

Quarta-feira, 18.06.14

Dê-se um texto a ler ou a ouvir a um grupo e, em regra, pelo menos uma pessoa terá qualquer observação inteligente a fazer, por mínima que seja. Basta ver as “cartas ao director” na grande imprensa. Mas não só. Ao meu redor colecciono exemplos. Este é um pequeno pacote com alguns.

Há dias, nas Correntes d’Escritas na Póvoa, encontrei um antigo colega. Perguntou-me o que achava de duas passagens no Mau Tempo no Canal. Numa, o narrador diz que, do Campo Raso, na ilha do Pico, Margarida contemplava a Horta. Garantiu-me que daquele local isso é impossível. Foi pároco nas redondezas e conhece bem a área. E contra essa evidência, que poderia eu contra-argumentar em defesa de Nemésio? A outra: Declara-se que Margarida foi à missa em Sexta-Feira Santa. Impossível! - acrescenta ele, que sabe da poda porque foi padre - esse dia é o único do calendário litúrgico em que não há missa.

Ora toma, meu querido Nemésio. Nenhum dos teus revisores entendia nem da geografia picoense nem de liturgia.

Falei em “pacote” porque estas foram apenas para servir de prefácio à que se segue. Numa das sessões das 10.as Correntes d’Escritas, Gonçalo M. Tavares leu uma das suas inconfundíveis mini-estórias tão sua marca. Eu resumo grosseiramente: um homem vai pedir emprego e cortam-lhe uma mão. Volta mais tarde em nova tentativa, cortam-lhe a outra mão. Não sendo da estirpe de desistir, regressa e volta a pedir emprego. Cortam-lhe a cabeça.

Assisti à sessão no fundo do auditório a abarrotar de gente, dezenas de pessoas sentadas nos corredores. Veio o tempo de perguntas e pedi o microfone. Tinha uma: Aquele final abrupto de estória à Anton Chekhov deixava-me uma enorme curiosidade. Para onde terá então ido trabalhar esse tal indivíduo sem mãos nem cabeça? Terá sido para o Governo?

Depois da chalaça, o diálogo com a mesa prosseguiu sério. Do meio da sala, levanta-se um ouvinte e caminha para a porta de saída. Passa por mim e cochicha-me: Aquele homem não podia nunca ir trabalhar para o governo. Sem mãos, como poderia ele meter dinheiro ao bolso?

Não resisti. Voltei a pedir o microfone e tornei público o comentário daquele anónimo que pelo menos eu desconhecia por completo.

Dia seguinte. No átrio junto ao auditório, os fumadores vingam-se da privação da chucha nos interiores e o recinto torna-se uma ágora grega de trocas de conversas em camaradagem absolutamente horizontal. De repente, uma cara desconhecida, olhar inteligente e expressão escondida por detrás de espessa barba faz-me sinal de aproximação. Quer dizer-me alguma coisa, mas evita ser intrometido. Avanço eu porque lhe reconheço o rosto. Exactamente o mesmo que na véspera passara por mim e mandara aquela boca. Meio entre dentes, explica: Considerei melhor. Aquele personagem sem mãos e sem cabeça, lembra-se?  Eu: Sim, claro. Foi você que mandou aquela forte. Claro que me recordo. Então o meu anónimo continuou: Reconsiderei. O melhor emprego para ele não é no Governo, mas no Banco de Portugal. É que, sem cabeça, obviamente não tem olhos e não precisa deles porque nunca vê nada. Sem mãos, também não tem problema. Os amigos tratam de lhe pôr dinheiro ao bolso.

E desapareceu.

Não resisti a, antes da minha palração pública, divulgar essa emenda do meu comentador anónimo. Tive de fazê-lo, porque corria o boato de que eu inventara a estória. Insisti que não, pois procuro ser fidedigno nos relatos. Se digo que aconteceu, aconteceu mesmo. Como a mãe do garoto da minha terra que foi posto fora da escola. Entra em casa a chorar sem conseguir explicar à mãe a razão. Ela decidiu tomar conta do caso e foi à professora. O meu filho foi mandado para casa porquê? Ouviu então: Porque ele disse que viu a coisinha da Joana. Venta levantada, a mãe reagiu: Saiba a senhora que o meu filho pode ser o que for, mas se ele disse que viu é porque viu mesmo!

Horas mais tarde, outro anónimo veio confidenciar-me a identificação da minha personagem. Director do Varazim (assim, à antiga) Teatro. Deu-me o nome mas, se o meu anónimo falou sempre em voz baixa, se calhar é porque prefere mesmo manter um semi-anonimato.

 

Onésimo Teotónio Almeida

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publicado por picodavigia2 às 23:28





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