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IN MEMORIAM DO NOÉ

Terça-feira, 08.07.14

Confesso que durante os anos que vivi no Seminário, nunca tive oportunidade de desenvolver e cultivar grande amizade com o Noé. Desde o primeiro ano que ele, devido à sua opulência corporal, pertencia ao grupo dos “grandes”, ou seja, dos últimos da fila, juntamente com o Onésimo, o Octávio, o José Maria Couto, o José Gabriel, o José Maria Ávila e mais um ou outro. Eu, o Faria, o Jorge Nascimento, o Lima Oliveira, o José Augusto, o José Adriano (de São Bartolomeu) e mais alguns, ocupávamos os lugares da frente, dos mais “pequenos”. Habituados a andar em “bicha” para todo o lado, nos passeios pelo Relvão, pela Doca, pelo Alto da Mãe de Deus ou pelo Jardim António Borges, ao dispersar, raramente nos separávamos.

Um episódio ocorrido no início do nosso 2º ano, veio agravar este injustificável “fosso”. No salão de estudo, estreito que nem um corredor, ao fundo, do lado das escadas que davam para os lavatórios e a seguir às malas dos alunos do 1º ano, existiam cerca de vinte carteiras pretas, grandes e com ampla capacidade de arrumação. Creio que teriam sido enviadas, como excedentes, do SEA, pois eram iguais às que ali encontrei mais tarde. As restantes eram umas simples mesas de madeira, envernizadas, muito pequenas e exíguas, com um tampo por cima, que mal fechavam se lhe colocássemos dentro mais um caderno que fosse. As carteiras grandes eram, obviamente, reservadas aos alunos do segundo ano, mas não chegavam para todos. Possuir uma carteira daquelas, no segundo ano, era um sonho de todos. Os “das ilhas de baixo”, no início do segundo ano, ao chegar, no Carvalho, uns dias mais cedo do que os de S. Miguel, ocuparam-nas, literalmente, todas. Chegaram os micaelenses, entre eles os “grandalhões” e não é que o padre José Franco, impõe uma imediata acção de “despejo” das ditas cujas, sem direito a protesto, a mim, ao Faria e a outros, alegando, simplesmente, “que aquelas carteiras eram para os maiores”. Ficamos furiosos!

É verdade que em Angra, já maiores e mais maduros, aquele “fosso” foi, naturalmente, diminuindo, sem no entanto se esvair por completo. O Noé abandonou o Seminário, creio que ao terminar o Curso de Filosofia e eu o de Teologia. Nunca mais nos encontrámos.

Mas quis o destino que, passados muitos anos, nos reencontrássemos num desses maravilhosos e inesquecíveis encontros do Mucifal - berçário de memórias e cimeira de troca de afectos - com a agravante de, nesse dia, sermos os únicos de 1958/59. Não nos largámos um ao outro e o dia foi pequeno para reavivarmos memórias, saudades, recordações e estórias dos anos do Seminário e para partilharmos as nossas posteriores vivências, humanas, familiares, profissionais e sociais. Foi então que percebi que o Noé fora um digno, competente e exímio profissional, orgulhoso do seu valor, ufano do seu excepcional currículo, aureolado de uma excelsa dignidade e de uma notável dedicação e empenhamento. Senti, sobretudo que o Noé era dotado duma grande alma e de um bondoso coração.

E creio que o Noé sentiu algo semelhante em relação a mim, porque no fim do dia, ao despedirmo-nos, ambos lamentámos, termos desperdiçado tantos momentos em que, no Seminário, poderíamos ter vivido sensações tão intensas e tão gratificantes como as daquele dia. Foi então que, para desagravar, esse défice de troca de afectos e amizade, prematuramente, desperdiçados, prometemos um ao outro que nos havíamos de voltar a encontrar, talvez no Norte, na Madeira ou até nos Açores…

Infelizmente, já não nos reencontraremos, porque o Noé partiu hoje e para sempre.

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publicado por picodavigia2 às 18:19





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