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JOSÉ MARTINS GARCIA

Sexta-feira, 28.02.14

José Martins Garcia nasceu na freguesia da Criação Velha, na ilha do Pico, em 17 de Fevereiro de 1941 e faleceu na Lagoa, ilha de S. Miguel, em 3 de Novembro de 2002. Para além de escritor foi professor universitário em Lisboa e nos Açores. Tanto a sua carreira de professor e de crítico literário, como a de escritor, o tornaram digno de referência na sua geração. Bom aluno desde a escola primária, já nessa fase dizia querer ser escritor e mostrava propensão para as letras. Fez estudos secundários na Horta e em Lisboa. As suas vivências, ainda como adolescente, na capital, influenciaram a sua obra literária. Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1969, tendo sido aluno de Vitorino Nemésio, Jacinto Prado Coelho, Lindley Cintra, Maria de Lurdes Belchior e de David Mourão-Ferreira. Nemésio e Pessoa foram as suas preocupações críticas, objecto de trabalhos académicos e «modelos» estéticos de forte referência. Além de aluno, José Martins Garcia conviveu com Nemésio em viagens de navio entre Lisboa e os Açores, o que lhe proporcionou aceder a algumas confidências literárias do autor de Mau Tempo no Canal. José Martins Garcia foi leitor de Português em Paris, assistente de Linguística Geral na Faculdade de Letras de Lisboa, Professor-visitante na Brown University e professor na Universidade dos Açores onde se doutorou com uma tese intitulada «Coração Despedaçado» (Subsídios para um estudo da afectividade na obra poética de Fernando Pessoa). Era, de resto, um projecto que já trazia adiantado dos Estados Unidos: um trabalho que, segundo David Mourão-Ferreira, o coloca «na primeiríssima fila dos grandes especialistas da obra de Fernando Pessoa» Professor na Universidade dos Açores, José Martins Garcia leccionou, primeiramente, Linguística, depois direccionou-se para a Literatura, vindo a ocupar a cátedra de Teoria da Literatura até se aposentar. O seu lado de docente e de crítico é faceta muito importante da sua personalidade, na qual se cruzam o criador, o crítico, o professor. «só eu sou o sem deus a contas só comigo»

A obra ficcional de José Martins Garcia é mais conhecida e abundante. Alguns seus contemporâneos contam que terá ensaiado ficção ainda aluno da Universidade e terá mostrado a amigos. O livro não agradou e, num ataque de fúria, tê-lo-á destruído, na lareira da casa onde habitava no Conde Redondo. Martins Garcia era um temperamental a quem a experiência da guerra na Guiné ainda abalou mais os nervos. Martins Garcia ficou fortemente marcado pela experiência das privações, pela violência, pelas incertezas do quotidiano da guerrilha.

Na obra de ficção de Martins Garcia nota-se ironia, sarcasmo e amargura. Não só são evidentes algumas notas disfémicas na reconstituição de alguns ambientes de Lisboa, quer dos anos de estudante, quer mesmo do 25 de Abril, como a recordação de uns Açores de infância e adolescência, iluminada, depois, pelas leituras de história e pela própria reflexão. Ficamos então com uma imagem de ilhas ignotas, caracterizadas por pobreza real e pobreza cultural, por uma religiosidade primária e quase grotesca, por uma aridez do clima e das pessoas. Talvez pensando em especial no Pico da sua infância, lhe ficou esse mundo árido, amargo, injusto, que se esconde porém por detrás de uma paisagem muito bela. A Fome, por exemplo, é uma amarga narração de vivências do estudante das ilhas «perdido» no continente, mas é também um mundo fantástico e simbólico, no qual embrecha uma narrativa histórica do padre António Cordeiro. Há realismo amargo na viagem «paradigmática» dos navios da Insulana (as privações e horrores do enjoo em segunda ou terceira classes de um paquete velho, o destino incerto do estudante, os anos difíceis da capital no fim do regime salazarista. Mais do que a habitual violência verbal, a Fome aponta para uma fome simbólica : isolamento, emigração, terramotos.

A obra de José Martins Garcia, como se vê na dedicatória de A Fome, é quase toda ela uma «descida aos infernos», um acto de preenchimento de uma solidão profunda: «Procuro-me como um fantasma que regressa ao lar (...). [...]. Procuro-me na fome imorredoura.» (A Fome). A vida em Monte Brabo é uma pasmaceira, uma rotina; a montanha do Pico uma espécie de presença tutelar, mas também quase um fantasma – como vê no Conto «Depois do fim do mundo».

São evidentes na obra de José Martins Garcia um sentimento de amarga solidão, de ironia e de sarcasmo veiculados numa linguagem contundente ou mesmo disfémica, com uma repulsa pelo falso moralismo, uma tendência caricatural contra os «bons propósitos» da sociedade, ou até mesmo acerca das contradições da Revolução Mas toda essa irreverência e essa «violência» verbal se fazem num uso impecável da Língua Portuguesa, que se afina no seu ensaísmo e nos seus trabalhos de natureza académica. A obra de José Martins Garcia é já objecto de teses académicas em Universidades Portuguesas e estrangeiras (nomeadamente no Brasil e nos E.U.A.). António Machado Pires

A sua obra apresenta uma diversidade de intervenções, que vão desde o ensaísmo, à poesia, passando pelo romance, pelo conto e pela crítica jornalística.

No jornalismo português destacou-se, antes e depois do 25 de Abril, no República, Jornal Novo, A Luta, A Capital, o Diário de Notícias, O Diabo e a Vida Mundial. No ensaio e crítica: Linguagem e Criação, Cultura , Política e Informação, Vitorino Nemésio .A Obra e o Homem, David Mourão-Ferreira. A Obra e o Homem, Temas Nemesianos, Fernando Pessoa – “Coração Despedaçado”, Para uma Literatura Açoriana, David Mourão-Ferreira – Narrador, Vitorino Nemésio – à luz do Verbo e Exercício da Crítica(1995). No teatro: Tragédia Exacta e Domiciano. No conto: Katafaraum é uma Nação, Alecrim, Alecrim aos Molhos, Querubins e Revolucionários, Receitas para Fritar a Humanidade, Morrer Devagar, Contos Infernais e Katafaraum Ressurecto. No romance: Lugar de Massacre, A Fome, O Medo, A Imitação da Morte, Contrabando Original e Memória da Terra. Na poesia: Feldegato Cantabile, Invocação a um Poeta e Outros Poemas, Temporal e No Crescer dos Dias.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 16:15





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