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LEVAR A CARNE

Sábado, 23.05.15

O Sábado, antes do domingo de Espírito Santo, era dia de Festa na Fajã Grande, sobretudo para a pequenada. Era o dia de “Levar a Carne”.

Durante a noite, de sexta para sábado, um grupo de homens juntamente com os cabeças, não dormiam. Ficavam a noite inteira, a cortar, a serrar e a picar a carne. Estendendo molhos e molhos de cana roca sobre o soalho, sobre eles iam colocando os montinhos de carne devidamente pesados, de acordo com os registos do rol e que indicavam a quantidade de carne que cada mordomo pretendia. Havia ainda os montinhos dos que não eram mordomos mas que se haviam arrolado e de outros destinados a esmolas a pobres. Sobre cada um colocavam uma tirinha de papel com o nome do dono da casa a quem a carne se destinava. Depois ordenavam os montinhos por ruas, começando pela Assomada, na casa do Senhor João Fagundes e terminando na Via d’Água, em casa do José Tomé.

A seguir à missa da manhã, depois de estalar um foguete e repicar o sino, o Senhor Padre Pimentel, revestido de sobrepeliz, estola vermelha e barrete de três bicos, acompanhado por meu tio Chico, o sacristão, que levava a caldeirinha com a água benta e um grupo de fiéis, em procissão, dirigia-se para a Casa do Espírito Santo de Cima, a fim de benzer a carne e o pão. Ao entrar na Casa o reverendo, todos se levantavam e fazia-se silêncio. O senhor padres, ensopando o hissope na água da caldeirinha, atirava para cima da carne e do pão, respingos de água, ao mesmo tempo que recitava salmos, antífonas e orações, em latim. Ninguém o percebia. Depois, com a mão desenhava cruzes no ar e todos se benziam. O senhor padre retirava-se depois de lhe ser garantido que lhe iria ser enviada uma bela posta de carne, como recompensa pelo serviço que ele acabar de prestar.

A Casa enchia-se de crianças, munidas de pequenas cestas e travessas. Iriam, para gaudio de todos, distribuir a carne por toda a freguesia. Os homens enchiam-lhes as cestinhas com a carne, onde permanecia o nome do dono da casa a que a mesma se destinava. Não podia haver enganos. Organizava-se o cortejo a caminho do Cimo da Assomada. Os foliões e as bandeiras esperavam na rua. A coroa entrava em todas as casas. Depois da Assomada, havia de ser a Fontinha, com aquela estirada até ao Alagoeiro, onde, muito isolada, ficava a Casa do Luís Fraga. Seguiam-se a Praça, as Courelas e a Rua Direita. De tarde a Rua Nova, a Tronqueira e, por fim a Via d’Água. À frente a bandeira branca, as crianças com as cestinhas e travessas cheias de carne e de pão, as bandeiras vermelhas e a coroa, desta feita levada por um rapaz que a caminhada seria longa e cansativa. Por isso se revezava e voltava a revezar. É que a coroa entrava em todas as casas, mesmo nas que ficavam mais afastadas. Depois os foliões e os cabeças a coordenarem tudo. As crianças tinham que percorrer as ruas várias vezes porque depois de entregar a carne numa casa, voltavam à Casa do Espírito a fim de encherem de novo a cesta. A Assomada, embora não sendo a mais extensa era a rua com mais habitantes e, lá no Cimo, bifurcava-se. Uns tinham que ir para os lados do Covão outros para os do Pico da Vigia, onde, na primeira casa, morava a Senhora Estulana. Além disso a rua tinha diversas canadas que a tornavam ainda maior. A demora era muita, porque acompanhando a criança que levava a carne, a coroa entrava em todas e em cada uma das casas, sendo beijada e venerada pelos presentes. Os foliões cantavam, os sinos repicavam e, de vez em quando, estoirava um foguete. Cantavam-se loas ao Divino: Lavrador da Arada, A Minha Vaca Lavrada, Ó,Venha, etc. Também a Barca Bela: Quem quer ver a barca bela, Que se vá deitar ao mar. Nossa Senhora vai nela, Os Anjos vão a remar. S. Vicente é o Piloto, Jesus Cristo o General. Que linda bandeira levam! A bandeira de Portugal.

Casas havia que para além duma moedinha de dez ou vinte centavos dada à criança, ofereciam uma fatia de pão adubado e um cálice de licor aos que entravam. Os cabeças, com o rol, iam registando e recebendo o dinheiro da carne.

O sábado de Espírito Santo, na Fajã Grande, era totalmente destinado a ir levar a carne aos mordomos e pobres. Cada qual a guisava, em sua casa da forma que queria e entendia.À noite, era o último dia de Alvorada.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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