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MAIS UM ENCONTRO NO MUCIFAL

Terça-feira, 14.01.14

Mucifal continua a ser aquele recanto ubérrimo encastoado entre o mar e a serra, a balizar a vila de Sintra, a abarrotar de excelentes praias e a demonstrar que a freguesia de Colares não é conhecida somente pelos seus famosos vinhos, pelas suas deliciosas maçãs ou apenas pelos históricos lugares de Almoçageme, Atalaia, Azenhas do Mar, Azóia, Eugaria, Gigarós, Penedo, Praia das Maçãs e Ulgueira, mas tem ali, mesmo ao lado de Nafarros e do rio Galamares, mais um baluarte da sua história, um testemunho da sua existência no espaço e no tempo. Um vale encantado, que o romancista e escritor de viagens inglês, William Beckford, classificou como: «uma origem de perpétuo encantamento». O mar, para além dos inebriantes auspícios com que, à mistura dos respingos de salmoura e do sabor a maresia, o asperge, salpica o Mucifal duma permanente e continua emotividade e metamorfoseia-o em santuário de imponência e quiescente sobriedade. Por sua vez, a serra, paramentada de verde, mas de um verde deslumbrantemente atraente, e coroado com a sombra heráldica de palácios, castelos e conventos, atufa-o de um ousado encanto e encrava-o numa perplexidade, senão benéfica, pelo menos salubre, augusta e deslumbrantemente fascinante.

O Mucifal é uma espécie de íman gigante, que, atiçado ao tempo, gira sobre o remoer de ecos e memórias, transformando-se numa perene e continua incandescência de sentimentos, num santuário de encanto e deslumbramento, num enorme e profundo vale, onde corre lenta e pausadamente um gigantesco, inebriante e inesgotável caudal de memórias e recordações.

O Agostinho e Aldina, a gerarem e a deixarem efluir ali, uma espécie de epicentro de amizade, um turbilhão de sentimentos partilhados, gerado há mais de duas décadas, misturado com o sibilar dos que, embora tendo partido - Raimundo, Artur Pereira, Artur Carvalho – continuam sempre presentes em memória e saudade, como pioneiros e pedras angulares deste rio beneficamente poluído de uma salutar “açoreanidade”, desta espécie de palácio construído com a lava basáltica que trazemos no peito e de que também somos feitos, nunca está terminado porque há sempre um rio de lava que nunca seca, há um perpétuo peregrinar no tempo, um caminho sempre aberto e disposto a receber, abraçar e acarinhar, mais um que, “de iure e de facto”, se candidata à deliciosa ousadia de encontrar aquele abraço há tanto tempo perdido, aquele rosário de memórias há tanto tempo procurado, aquele memorial de recordações há tanto tempo esquecido. Desta feita personificado no Ângelo Valadão.

Os que a primeira vez ali chegam, partem a sorrir, aureolados com o desejo de voltar e transformam-se numa espécie de arautos do fruitivo, do encantador e do inesquecível. Um hino de glorificação e um salmo de agradecimento ao esforço, à boa vontade e hospitalidade do Agostinho e da esposa que ontem, mais uma vez, juntaram ali, na sua casa, no Mucifal em mais um desses históricos, notáveis e inesquecíveis encontros, um punhado de “Senhores”, que para além de degustar a excelência dos manjares confeccionados pela perícia pantagruélica da Aldina e de usufruir da picoense competência enólica do Simas e da amplitude da sua garrafeira, cantaram, recordaram, dialogaram e conviveram: o Manuel Nóia e Artur Goulart aportados à Santa Casa em 1947, o Agostinho Quental e o Antonino Ávila, em 1950, o Luís Medeiros e o Agostinho Simas de 1952, o Olegário Paz em 1954, o Andrade Moniz e o Mário Carmo em 1955, o Carlos Sousa e Carlos Fagundes em 1958, o Ângelo Valadão em 1961, e ainda o Bartolomeu Dutra e o José Paulo Machado, estes bem mais novos. A acompanhar, a maioria, as esposas, sempres revestidas de uma graciosidade gratificante, duma simpatia excedente e duma dedicação extraordinária, também elas já habituadas a partilhar músicas e memórias. Outros, de longe a rebentar de saudade, a arder em desejos de ali estarem, transmitidos em mensagens: o Onésimo e o José Dioclécio…

Depois dos abraços da chegada, da alegria do reencontro e do saborear do almoço é o transvasar da inesgotável torrente de músicas e memórias.

Este encontro, porém, teve o condão de me surpreender com o acesso a um excelente acervo de memórias visuais (fotografias) e escritas que possui o Artur Goulart. Trata-se de um álbum, excelentemente organizado e religiosamente guardado, que contém, para além de grande quantidade de fotos, um manancial de textos, muitos deles, manuscritos e que constituem documentação de grande interesse e meticulosidade.

 Por isso, o Mucifal é sempre assim, um inesgotável mar de ternura, de alegria, de bem-estar, de saudade, de recordações, de acordes musicais e, sobretudo, de amizade. De muita amizade.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 4 de Novembro de 2012

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publicado por picodavigia2 às 10:45





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