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MAR

Sábado, 17.03.18

Quando se vive numa ilha ou, sobretudo, quando nela estagiamos apenas alguns dias, temos a agradável sensação de ter uma companhia permanente e protetora: o mar. Aqui, acolá, além, ele está sempre a nosso lado. Ainda noite escura abre-se uma porta, espreita-se por uma nesga da janela e lá está ele. Em qualquer vereda, caminho ou estrada em que se transite ele acompanha-nos. Espraiamo-nos sobre um miradouro, sentamo-nos no banco de um jardim ou debruçamo-nos sobre o peitoril duma janela e ele lá esta, à nossa espera. Umas vezes calmo, tranquilo, meigo e sossegado. Outras, roufenho, revoltado, malino, como se tivesse o diabo no corpo. Umas vezes faz-se acompanhar duma beleza ímpar, espelhando uma claridade, serena, silenciosa e acolhedora. Outras vezes, com o silêncio da noite, traz a Lua como companheira, a transformá-lo, nas noites mais claras, num imenso lençol brilhante e prateado, nas mais sombrias num enorme tapete azulado e fofo.

Hoje o mar esteve muito calmo e sereno. Por vezes parecia-me ouvir o seu silêncio. De manhã, apesar de ainda lusco-fusco me entrar pela vidraça, desprezei-o. Simplesmente fiz de conta que não existia, pese embora, ao acordar, olhasse para ele durante alguns momentos. Abraçado à intimidade do amanhecer, teimava em fazer que eu sentisse, que o ouvisse, pelo que se fazia presente através de uma ou outra pequena onda que, rolando lentamente, se vinha desfazer, num leve e suave murmúrio, junto ao negro baixio, espalhando-se, de seguida sobre os laredos. Uma irrequieta tranquilidade atraente que eu desprezei! Um murmúrio de silêncio enternecedor que eu não quis ouvir!

Enlevava-me com outras tarefas. O mundo é feito de bons e maus. Assim como os homens também os vegetais. Na terra semeia-se e planta-se os que nos vão alimentar. Cava-se, alisa-se a terra, semeia-se, planta-se, rega-se e aduba-se. Logo se aproveitam as mondas, as ervas daninhas a florescerem, como danadas, no meio deles, a atrofiá-los, a destruí-los – os feijoais, os tomateiros, as cebolas, os pimentos, as nabiças… É imperioso arranca-las, destruí-las, deixando aos bons a possibilidade de se desenvolverem, crescendo com mais fulgor, com mais sucesso. Melhor produtividade. O mar lá ao longe, entristecido, morno, pensativo. A natureza, porém, é mãe, protetora, auxiliadora. E durante a tradicional sesta no santuário do vinho, uma chuva miudinha, conciliadora, caritativa. Uma dádiva divina.

Foi esta chuva, benevolente e protetora, a escoar-se pelos contrafortes da montanha que, obstruindo a continuidade do trabalho agrícola, me fez regressar ao omnipresente mar que, apesar de toda a minha indiferença, continuava à minha espera. Não hesitei e caminhei como um louco na sua procura, com uma vontade enorme de o abraçar. Atirei-me a ele como São Tiago aos mouros! Agarrei-o, abracei-o, beijei-o, nadei e mergulhei, envolvi-me com ele numa doce, morna e suave banhoca.

Regresso aos campos mas a persistência da chuva obstrói qualquer atividade. O mar continua ao meu lado, sempre presente. Teima em não querer abandonar-me. O Sol há muito que se perdeu. Depressa chegará noite, serena, silenciosa e acolhedora. Mas a montanha cobriu-se de um nevoeiro, denso, aborrecido a afastar as cagarras dos seus cânticos e bailados. Acendem-se luzes, mas tão enfurecida é esta bruma e tão ávida de tudo dominar e obstruir, que se atirou à bruta, sobre o mar tirando-lhe o brilho, a quietude e o silêncio. Este mar que me perseguiu durante todo o dia, agora, envergonhado e tímido, vai-se perdendo aos poucos como se simplesmente fosse o restolho duma sombra entontecida. Não contente com me levar o mar, esta bruma carunchosa e opaca ainda me engoliu, num ápice, o meu terceiro dia de férias.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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