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MARTA FARTA

Quarta-feira, 30.12.15

“Morra Marta, morra farta.”

 

Mais um interessante adágio muito usado, antigamente, na Fajã Grande e que terá sido importado, provavelmente trazido para a ilha das Flores pelos primeiros povoadores pois é conhecido e usado em muitas outras localidades. A dúvida que se levanta, relativamente à sua estrutura frásica, é a de que quem terá sido esta Marta, sendo muito provável que apareça aqui, como Pilatos no Credo, isto é, apenas por razões de rima, elemento preponderante nos provérbios e em todos os textos orais. Assim em vez de Marta poderia ser muito Maria, Joana, Francisca ou o nome de qualquer outro elemento do conjunto dos seres humanos.

Dizem os especialistas na matéria que este provérbio deve ser entendido como uma exortação epicurista do tipo de convite ou apelo a que cada homem aproveite bem a vida. Na verdade, para o filósofo grego da antiguidade, Epicuro e para os seus discípulos e seguidores o sumo bem reside no prazer. Trata-se, no entanto, de um prazer entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. Mas o único e verdadeiro prazer é o do corpo porque o prazer do espírito é apenas lembrança dos prazeres do corpo. O homem é um animal cujo deus é a barriga. Por isso em qualquer situação da nossa vida, incluindo a dor ou na morte, o que importa é ter a barriguita cheia. Estar farto!

Mas por outro lado, parece ser evidente que este adágio também exorta a uma espécie de insensata sensatez de se viver bem, de se gozar a vida e de se gastar o dinheiro que se tem e, sobretudo, o que se não tem. Viver à farta, viver bem. Isto torna-se muito mais desejado e querido numa sociedade pobre, limitada, que depende exclusivamente do seu trabalho e das condições climatéricas. Assim, havia que aproveitar a vida quando os condicionalismos a tal obrigavam. As pessoas sabiam e sentiam o sacrifício, o esforço, a míngua e as limitações do seu quotidiano e sabiam que a isso não podiam fugir. O mesmo acontecia com a morte. Pois, ao menos, que vivessem com a barriga cheia. Mas convenhamos que, regra geral, isto na Fajã Grande, na década de cinquenta, tudo isto não passava de um mero desejo. Uma miragem!

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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