Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



MATAR O GADO

Sexta-feira, 22.05.15

A festa do Espírito Santo da Casa de Cima começava na sexta-feira, dia de matar o gado. Num dos domingos anteriores os cabeças haviam percorrido as casas da freguesia, a fim de arrolarem quem desejava comprar carne para o dia da festa. Primeiro arrolavam os mordomos. Cada qual declarava a quantidade de carne que desejava para o dia da festa. Num desses domingos, ou se necessário em dois, de tarde, os cabeças, em cortejo, com os foliões e os símbolos do Divino Espírito Santo, percorriam as ruas da freguesia, a fim de saber a quantidade de carne que pretendiam, pois cada um é que pagava a sua, e se davam ou não davam pão de trigo, uma vez que o pão era oferecido pelos mordomos que tinham mais posses e destinava-se aos mais pobres. Na verdade, este e o excedente de carne eram distribuídos pelos mordomos pobres ou pelos pobres da freguesia que nem mordomos eram. Uma vez que todos compravam carne, indagavam e registavam apenas a quantidade que cada um desejava, escrevendo os nomes numa folha de papel, na qual registavam a quantidade de carne pretendida. Os que não eram mordomos ou os que os o eram, mas da Casa de Baixo ou do Império de São Pedro, se desejassem também podiam ser arrolados, indicando a carne desejada. Havia também que contar com as esmolas para os pobres, para os que não a podiam pagar. Depois de calcular a carne necessária para a festa, quantidade que não variava muito de ano para ano, escolhia-se o gado para abater. Geralmente duas rezes bastavam. Na sexta-feira de tarde, o gado era trazido para junto da casa e amarrado junto ao pau da bandeira. Pouco depois organizava-se o cortejo para o Matadouro que ficava no Porto, num pequeno rolo que existia junto à Baía d’Água e onde, paredes meias com o caminho antigo, haviam um pequeno nicho, construído para o efeito, onde era colocada a coroa. Ao lado as bandeiras, o testo e o tambor. O cortejo descia a rua Direita e a Via d’Água, até ao Matadouro. À frente a bandeira branca geralmente levada por uma criança, filho ou familiar de um cabeça. Depois os animais, devidamente amarrados, presos por uma corda e enfeitados com grinaldas de flores na cabeça. Seguiam-se a coroa e as bandeiras vermelhas transportadas por familiares dos cabeças. Atrás os foliões, muitas pessoas, algumas munidas do material necessário para a matança e de paus e recipientes para trazer a carne e as vísceras, no regresso, já com os animais abatidos. Os sinos repicavam e os foguetes estralejavam tanto na ida com na vinda. Os foliões acompanhavam com os seus cânticos, com destaque para o Lavrador da Arada e a Minha Vaca Lavrada. Uma vez mortos, esfolados e limpos, os animais eram partidos em quatro bons pedaços e transportados, de palanca, aos ombros, em cortejo até à casa, sempre acompanhados pelo cantar dos foliões, pelo repicar dos sinos e por muito povo, sobretudo crianças. As mulheres e familiares dos dois cabeças traziam as vísceras e o sangue em alguidares transportados à cabeça. As primeiras para limpar, guisar e fazer caçoila, O sangue para fazer o sarapatel. Ao chegar à Casa a carne era presa em fortes ganchos de ferro e, mais tarde, colocada no chão, mas em cima de uma boa camada de folhas de cana roca muito fresca e verdinha, à espera de ser picada durante a noite. Esta parte da casa onde ficava a carne havia sido dividida com bancos, para que à noite se pudesse fazer a Alvorada e no fim desta, os jogos, mas num espaço bem mais reduzido do que nos dias anteriores. Só então, lá para depois da meia-noite, um grupo de homens ficaria a desmanchar a carne e a parti-la, formando os quinhões de cada mordomo, de acordo com o que combinara, quando a coroa andara pelas casas a arrolar os mordomos.

Sobre o gado e o dia da matança contavam-se muitas estórias. Uma delas era a seguinte: Antigamente havia um homem que tinha prometido dar um bezerro em louvor do Senhor Espirito Santo. Mas o homem tinha poucas relvas cá em baixo e, alem disso, precisava delas para criar uma única vaca que tinha e que lhe dava o leite para criar os filhos. Por isso levou o bezerro para o Mato, Mas como não tinha relva no Mato, deitou-o no Concelho, isto é, naquelas relvas de ninguém, onde andavam as ovelhas. O homem ia ver o bezerro de vez em quando pois ele estava muito longe, lá para os lados da Pulgueira e das Pontas Brancas. Certo dia, ao ir ver o bezerro não o encontrou. Procurou-o por todos os sítios, um dois, três dias e o bezerro nunca apareceu: Uns amigos foram ajudá-lo, mas nada. Todos cuidaram desapareceu e todos e todos pensaram que o bezerro tinha caído nalgum valado e levado por alguma enxurrada. O certo é que nunca mais ninguém o viu. O homem era pobre e naquela altura a vaca já não dava outro bezerro nem podia comprar outro. Ficou muito triste por não poder cumprir a sua promessa. Mas no dia de matar o gado, para espanto de todos, o bezerro apareceu no Matadouro e. assim, o homem, cumpriu a sua promessa, matando o bezerro em louvor do Senhor Espírito Santo, por isso todos dizem que tinha sido um milagre.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:39





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Maio 2015

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31