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MATAR O GADO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 06.06.14

Sexta-feira, 7 de Junho de 1946

“Domingo que vem, ou seja, depois de amanhã vai ser o dia da festa do Senhor Espírito Santo da Casa de Baixo. Como é costume desde há muitos anos, vai ser uma grande festa, uma festa de arromba, para meter inveja aos da Casa de Cima que fizeram a sua festa há quinze dias. Durante a semana cantaram-se as alvoradas. Só fui lá um dia, que tenho pouco tempo, mas gostei muito. Lembrei-me dos meus tempos de criança, quando ia ver e ouvira folia durante toda a semana. Os cânticos são os mesmos de há setenta anos! Tem lá uns velhotes do meu tempo e um ou outro rapaz novo que deitam foliam muito bem, sim senhor. Os mais velhos vão ensinando estas coisas aos mais novos para que não as esqueçam. A Casa, no dia em que lá fui, estava à pinha! Os foliões começaram a folia fora da porta, com o início da Alvorada, logo depois de atirar o foguete. Fora da porta, cantam a "Alvorada Santa", mas não deitam folia. Depois cantam para entrar. Só foliam quando entram para dentro do edifício. Fazem um círculo, no meio da casa, em frente ao altar onde está a coroa, ao lado das bandeiras e começam a folia, saltitando, dançando e cantando diante do Senhor Espírito Santo. Quando o que está na parte da roda que passa em frente ao altar, esse vira-se ao contrário de modo a que fique de frente para o altar e nunca lhe volte o rabo para não desrespeitar o Senhor Espírito Santo. No fim da Alvorada fica muita gente por ali a fazer jogos, sobretudo o do "Anel" e o das "Prendas". Mas isso é bom é para gente nova e solteira. Assim que acabou a Alvorada, dei dois dedos de conversa com uns do meu tempo e vim logo para casa, até porque a minha Maria não quis ir comigo.

Mas como disse no princípio, hoje de tarde foi o dia de matar o gado. Foi à tardinha. Os dois gueixos que abateram foram comprados ao Raulino, foram trazidos para junto da casa e amarrados junto ao pau da bandeira. Pouco depois organizou-se o cortejo para o Porto, descendo a Via d’Água, até ao matadouro. A coroa e as bandeiras foram levadas por familiares dos cabeças. Atrás os gueixos, os foliões e muita gente. O sino repicou durante toda a tarde, sobretudo na ida e na vinda. Uma vez mortos, esfolados e limpos, os animais foram partidos em quatro bons pedaços que foram transportados, de palanca, aos ombros, em cortejo até à casa, sempre acompanhados pelo cantar dos foliões, pelo repicar dos sinos e por muito povo, sobretudo crianças. As mulheres e familiares dos dois cabeças trouxeram as vísceras e o sangue em alguidares transportados à cabeça . As primeiras para limpar, guisar e fazer caçoila, o sangue para fazer o sarapatel. Ao chegar à Casa a carne foi colocada no chão, mas em cima de uma boa camada de folhas de cana roca muito fresca e verdinha, à espera de ser picada durante a noite. Esta parte da casa onde ficou a carne foi dividida com bancos, para que à noite se pudesse fazer a Alvorada e no fim desta, os jogos. Só então, lá para depois da meia-noite, um grupo de homens ficaria a desmanchar a carne e a parti-la, formando os quinhões de cada mordomo, de acordo com o que há umas semanas haviam combinado, quando a coroa andou pelas casa a arrolar os mordomos. Depois escrevem um papel com o nome de cada um e colocam-no sobre o respectivo monte de carne que amanhã será distribuída.”

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publicado por picodavigia2 às 09:33





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