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MEMÓRIA DO PEDRO

Sexta-feira, 21.02.14

(TEXTO DE GABRIELA SILVA)

Acordei esta madrugada a pensar no Pedro. Era um velhinho querido.

Quem o visse com o bordão apoiado, o tronco levemente inclinado, diria que se tratava de um velho lavrador florentino cansado da enxada, a cair de cansaço.

 Quem se sentasse ao seu lado por uns minutos percebia que o Pedro era um admirável contador de histórias inventadas para divertir rodas de amigos.

Tinha um bigode pequenino, um rosto liso, limpo e uma careca branquinha, quase rosa, uma pele delicada como a de um bébé e um sorriso muito, muito maroto, qual rapaz de escola que esconde o ninho que roubou na curva da estrada.

Contava as histórias apoiado no bordão, raramente olhando os interlocutores (não por medo porque se alguém morreu sem medos foi o Pedro) mas porque a inclinação da coluna já não lhe permitia uma “actuação” mais erecta do corpo. Nem havia necessidade porque a sua verticalidade sempre foi uma atitude interior e não uma mera postura de manequim sem massa encefálica.

 Quem ficasse mais um pouco percebia que o Pedro sabia tudo e só falava do que sabia. Conhecia as famílias da sua terra como ninguém até à quinta geração, com defeitos e qualidades que não ocultava.Pelo contrário. A coisa que mais fascinava esta criança grande era escalpelizar até ao fim os defeitos de duas gerações de uma família qualquer. Mas sempre achei que o fazia sem má intenção. Eram essas as histórias que lhe vinham à memória.

Ele era um pouco o registo oral de coisas que nunca se escreveram e os encontros com ele eram uma tertúlia de gargalhadas e de prazer. E ninguém queria saber se a tia Maria, grávida do Padre “de não sei” abortara espontaneamente, a pedido de sua reverência ou de motu próprio com vergonha das más-línguas ou tivera um filho para ser registado com a paternidade singular de um inocente da paróquia e ser o afilhado mais querido do senhor Padre até à morte.

Para o Pedro tudo tinha um nome e ele dava-o sem medo. Mas limitava-se muito ao registo técnico e cultural dos acontecimentos. A história tinha sempre principio e fim mas o sumo, quem o quisesse que o procurasse. E ele sabia que ninguém teria paciência para ir aos arquivos de onde quer que fosse, à procura de um padre morto, cuja única glória fora engravidar a “beata” mais recatada de uma paróquia.

Referia-se à homossexualidade como um vício de charme e referia, num tom cheio de graça, que o neto de fulano ou o filho de sicrano era um “paneleiro” desajeitado, sem chegar a pensar, julgo, se as criaturas em apreço haviam chegado a materializar em prazeres da carne esse falhanço hormonal

 O Pedro tinha quase os mesmos inimigos que amigos. Por ser como era. Mas ninguém duvidava, ainda em vida, que, com a sua morte, se perdia uma das cabecinhas doutas nascida nas fragas da Fajã Grande com aquela dose de loucura acima do qb que tempera as emoções florentinas de quem sabe que o mundo não acaba ali.

 Pedro da Silveira morreu. Mas deixa uma longa história de vida. Para mim, enquanto chorava o poeta e amigo, apenas pensei no que o Pedro não disse nunca, nas coisas que não contou, e não falo das piadas porque piadas todas contam quando querem omitir os desgostos e as humilhações.O que estaria por detrás de algum sarcasmo algumas vezes? Dor? Os biógrafos do poeta hão-de estudar estas coisas.

 Pedro: deixaste vazio na minha alma e na nossa terra. Eu sei que tu amavas as Flores e que, tal como eu, partiste, não para as Califórnias de abundância que tão bem pincelaste, mas para algum lugar onde fosse possível fazeres e vida sem dares nas vistas a quem não querias.

 A nossa terra Pedro, não é mãe que se queira nem madrasta que se ajeite aos nossos temperamentos. Tu eras corrosivo demais para viver entre eles. O teu brilho mexia com a paz das estrelas dos nossos curtíssimos metros quadrados de verde. Tu tocavas na nevralgia em ferida de muitas ganhoas sem asas. Tu mandavas arpões como quem brinca na estrada a marinheiros de mar e bote, tu que nunca foste à baleia. Ninguém gosta de se ver retratado, sem estar em pose, bem vestido e de sorriso afivelado para a câmara.

Tu és um pintor. Na tua paleta de cores, a ilha teve sempre um lugar muito especial. Pegaram no teu poema e usaram-no de mil maneiras porque era sempre bonito. Usei-o também, muitas vezes, para pintar trabalhos meus. E quando me mandaste os teus “Poemas ausentes” passei a ter-te à cabeceira para te ler. Tu dizias tudo o que eu sinto. E dito por ti era tudo tão lindo.

 Uns anos atrás, em Tulare, deste tanto prazer a tanta gente. Sempre pensei que o Álamo, o Diniz e o Onésimo acabassem contigo com tanta história que te encomendavam. Mas tu mudavas de história, de árvore genealógica e de sobrenomes sem nunca te enganares. Feliz o momento em que o Diniz te levou lá, porque assim pude privar contigo e com a tua encantadora esposa numa intimidade ilhoa muito bonita.

Não posso falar mais de ti Pedro. Porque não sei coisas muito científicas a teu respeito e tu ainda entornavas as cinzas se eu citasse como tuas, coisas que não disseste.

 Gosto muito da tua memória, Pedro.

 Na minha banca de cabeceira, escrito à mão, está o teu poema, o poema universal, o nosso poema, o Poema com que nossa ilha te rende homenagem

 

ILHA

 O CÉU FECHADO

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 OLHOS DE FOME A ADIVINHAR-LHE Á PROA

 CALIFÓRNIAS PERDIDAS DE ABUNDÃNCIA

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publicado por picodavigia2 às 11:52





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