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MEMÓRIAS (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Segunda-feira, 05.05.14

Hoje apetece-me recordar coisas antigas, memórias de outros tempos, dos meus tempos de criança. É bom lembrar o passado e recordar as pessoas com quem convivemos noutros tempos, mas que já partiram. Algumas partiram há muitos anos.

Esta ilha das Flores, a ilha onde nasci, é terra de mar e de tempestades, de isolamento e de pobreza e talvez por isso, muitos do meu tempo resolveram parir, procurar terra de mais abundância e de vida melhor – a América. Eu também parti um dia, mas juntamente com muitos outros voltei, para a terra onde nasci e da qual nunca me esqueci. Linda a terra, esta. Pobre, pequena e simples mas bonita e airosa esta minha ilha, onde nasceram meus pais, meus avós e meus bisavós! E porque me recusei a deixar a minha ilha para sempre, a me esquecer dela, depois de alguns anos na Califórnia, para aqui voltei e aqui me fixei, com a minha Maria, para sempre. Tudo o que quero é viver aqui, pobre mas feliz, mas vivendo no cantinho onde nasci. Eu sou assim, um apaixonado pela minha terra e pela minha ilha. Podem bem acreditar, porque eu, há muitos anos atrás, apaixonei-me, verdadeiramente, por esta ilha e pela minha freguesia, a Fajã Grande, que continua bela, airosa, apesar de simples e pobre. É mesmo verdade, ora vejam lá. Talvez possais sentir o cheiro forte da erva e dos incensos que enchem estes campos e estas rochas, do trevo e do milho, as faeiras e dos inhames, do estrume das vacas e do sargaço, retirado do mar, que também serve para adubar os campos e os cerrados férteis das Furnas e do Areal. Mais adiante, a Ponta e para sul a Cuada. A pobreza era muita mas a alegria não nos deixava. Trabalhava-se muito, mas com alegria. As mulheres sachavam cantando, e cantavam apanhado o trevo ou lavando a roupa na ribeira. Lá ao fundo a rua da Via d’Água e depois o mar, também salgado, mas mais sempre forte e bravo, como eu gosto de o ver, com ondas bravias e sonoras, cheias de espuma e salmoura. No Rolo, nos dias que saía sargaço, era uma verdadeira festa de trabalho. Era bonito ver o povo a padejar, a escarafunchar a encher cestos e a acarretá-los para os lagos que se avolumavam a olhos vistos. Por vezes até se disputava a ver quem tinha o monte mais alto… mas os lagos não eram todos do mesmo tamanho. Eram bons tempos. Foi bom, sim senhor! Amanhã, ou talvez mais logo, vou continuar a escrever e a avivar outras memórias. Está na hora de almoço e não falta um caldinho de couves com uma talhadinha de toucinho e bolo do tijolo que a minha Maria já me veio chamar. Vamos cear os dois, à luz da nossa candeia…

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publicado por picodavigia2 às 14:01





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