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MESTRE JORGE

Quinta-feira, 16.01.14

Durante muitos anos e ao longo da década de cinquenta, o Senhor José Jorge, mais conhecido na freguesia por “Mestre Jorge” ou simplesmente, “O Sapateiro”, foi o único sapateiro existente na Fajã Grande. Mais tarde, a ele se juntou outros, nomeadamente o Serpa da Ponta que tinha oficina na Via d’Água, nos arrabaldes do Porto e o José Maria que, depois de alguns anos a trabalhar na Quada, assentou arraiais e montou a sua modesta sapataria na Fontinha.

Mestre Jorge disfrutava de pequena mas interessante oficina na Assomada, precisamente na loja da casa onde morava e que era contígua ao palheiro do gado. No entanto, esse edifício, que ao longo de anos, forçou a rua da Assomada a delinear uma enorme e acentuada curva, logo a seguir à Praça, a quando da abertura da estrada entre o Porto da Fajã e a Ribeira Grande foi demolido por completo, sendo construída, em sua substituição, uma outra casa, no mesmo local, mas mais encostada ao Outeiro, dando assim menos sinuosidade e mais largura à nova via.

Mestre Jorge não se dedicava a tempo inteiro ao fabrico, conserto e reparação do calçado. Criava duas vacas e trabalhava nos campos, tarefas em que era ajudado pelos filhos, permitindo-lhe, assim, dedicar grande parte do tempo ao ofício a que por gosto e dedicação se entregara.

Mestre Jorge tinha fama de ser um sapateiro, sábio, competente e trabalhador. É que para além de consertar todo o tipo de calçado e até remendar botas de borracha, frequentemente usadas pelos homens quando ceifavam erva nas lagoas exageradamente encharcadas, ele próprio também fabricava tamancos e galochas, um tipo de calçado mais rudimentar, mas muito usado na altura, na Fajã Grande: os tamancos pelos homens e as galochas pelas mulheres. Além disso era mestre Jorge quem fazia as botas dos jogadores de futebol, assim como a própria bola, cuja manufacturação era bastante complicada e de difícil execução. Construída com pequenos pentágonos de couro, depois de cosidos uns aos outros, a bola pronta, mas do avesso, pelo que tinha de ser revirada através de um pequeno orifício, tarefa difícil e delicada que só um hábil artista conseguia. Depois era meter lá dentro a câmara-de-ar, enchê-la e coser o buraco, mas de tal maneira a se poder abrir quando fosse necessário injectar mais ar na bola.

Mestre Jorge era meu vizinho e grande amigo do meu pai. É que para além da vizinhança, partilhavam a idade e comungavam um passado de juventude comuns. Por isso mesmo habituei-me sempre a respeitá-lo. Além disso os filhos eram pela minha idade e de meus irmãos, pelo que muito partilhávamos em folguedos, brincadeiras e até em trabalhos, ajudando-nos e auxiliando-nos reciprocamente.

Mestre Jorge, casado, em segundas núpcias, com uma senhora de nome Conceição, irmã do José Ti’Anina, teve cinco filhos. Quatro ainda residentes na Fajã Grande: a Madalena, a Hermínia, a Anina e o António. Apenas um, que durante a infância residia em casa de uns tios nas Courelas, o João Luís, emigrou. Do primeiro casamento, enviuvou muito novo, e teve apenas um filho, o José Jorge, na altura já casado, a morar no cimo da Assomada e que mais tarde também emigrou.

Mestre Jorge um homem que com o seu trabalho, dedicação, competência e, sobretudo, com a sua “arte” de sapateiro ajudou a edificar, construir e fortalecer a história da Fajã Grande, tornando-se uma das mais suas emblemáticas personagens da década de cinquenta.

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publicado por picodavigia2 às 09:41





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