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NA DEMANDA DO PASTELEIRO

Segunda-feira, 23.06.14

O trajecto entre o Porto Pim e o Pasteleiro, embora curto, foi demorado. Para além do cansaço a que arfavam, incondicionalmente, José e Madalena carregavam o peso dos seus parcos haveres. Além disso, o pequeno António, com o reboliço da viagem e a novidade de caminhar no estranho, tornara-se lânguido, birrento e choroso. Vezes sem conta, Madalena parava para encorajar o pequerrucho, incentivando-o, açulando-o, prometendo-lhe, para o alienar do tormento, uma “uma terra bonita” e “um brinquedo novo”, que ela própria nem sabia o que seria. Nesses momentos, porém, as lágrimas vinham-lhe aos olhos. É que voltando-se para atender ao filho e lhe dirigir palavras de ânimo, olhando a criança, pura e inocente, sabia que mais nada lhe poderia dar a não ser o seu intenso e enorme amor. Ao mesmo tempo, a sua dor ainda mais se acicatava, porquanto dava de caras, lá ao fundo, com a imponente montanha do Pico, enevoada e escura, a sombrear o canal, a abafar as encostas verdejantes da Criação Velha e do Monte e como que a proteger as humildes casinhas da Madalena, dos Toledos e da Abarca, por trás das quais uns pequenos cabeços obstruíam por completo a vista dos minúsculos e escuros casebres das Bandeiras e de Santa Luzia, que ela, agora apenas conservava, como uma lembrança ténue e doce.

A tarde descaía sobre a Horta. O silêncio que os rodeava, enigmático e persistente, provocava hesitações, medos e assombros. O vento soprava muito ameno, mas trazia no rastro um cheiro a queimado, a enxofre e a desalento. Ruas e caminhos continuavam desertos, apenas uma ou outra casa mantinham as portas abertas, por onde se emaranhavam alguns vultos, embrulhados em farrapos escuros, agarrados às paredes, a atiçar uma ou outra acha de lenha no lume, símbolo de uma esperança que, aos poucos, parecia fenecer por completo.

De repente, o pequeno António desatou num berreiro compulsivo, intenso e dramático. A mãe num alvoroço desgastante, colocou, de imediato, o cesto que carregava à cabeça, sobre um muro, abraçou-se ao garoto, apertando-o contra si como se fosse um boneco, confortando-o com afectos, fortalecendo-o com palavras e mimando-o com promessas. José, apreensivo, também parara a marcha lenta em que seguia, despertando do marasmo contemplativo em que se imiscuíra. Colocando os sacos no chão e cuidando que o filho se esvaía de fome, retirou do pesado cesto um caneco de leite. António bebeu-o sofregamente, parecendo, no fim, acalmar, parcialmente, a sua desolação. Colocando, de novo, o filho ao colo, a indicação do marido, Madalena de São João, muito lentamente, recomeçou a marcha. O cesto ali ficava. José mais apressado e desenvolto havia de ir colocar os sacos lá adiante, em lugar que se vissem. Depois voltava atrás e carregaria o cesto, levando-o bem lá mais adiante. Caminharia, assim, em “dois caminhos”, transportando, alternadamente, cesto e sacos, enquanto ela, Madalena, levava consigo o pequeno, exausto, cansado e, sobretudo, muito impertinente.

Algum tempo depois começaram a surgir os primeiros casebres do Pasteleiro. Eram, na maioria, construções pobres, rústicas, escuras, feitas de pedra basáltica, cobertas de colmo e palha, a comunicarem com exterior, apenas, por uma porta e por uma ou duas janelas. Não aguentado mais o desespero angustiante que o dominava, uma angústia preocupada em que submergia, José parou, colocou novamente os sacos no chão e bateu à porta de um dos casebres. Como ninguém surgisse ou sequer falasse, José voltou a bater, mais uma, duas e três vezes. Por fim surgiu uma mulher, já de avançada idade. Vestida de negro, com um bioco a tapar-lhe parcialmente a cara e que ela, com a mão esquerda, ia tentando descobrir, indagou:

- Que quereis? Se andam a pedir podem seguir o vosso caminho. A farinha que está na amassaria, apenas dará para hoje. Nada mais tenho do que pobreza, miséria e desgraça. Com as lágrimas dos meus olhos e o calor dos meus braços hei-de alimentar os meus netos que a peste lhes levou os pais. Amanhã?! Amanhã, Deus me ajudará!

José agradeceu, esclarecendo que não vinham pedir nada, nem muito menos alimentos, embora, ele, José, também não os tivesse em abundância. Que Deus a ajudasse e protegesse os seus netos, como havia de o ajudar a ele e à sua família. Apenas queria pedir-lhe que lhe indicasse um lugar, por mais humilde, pequeno e pobre que fosse, onde pudesse passar a noite com a mulher e o filho. Que ele e a mulher se amanhariam em qualquer sítio ou local, mas o menino bem precisava de umas palhinhas para dormir.

A velha, apontando para a única rua que atravessava o pequeno povoado de um extremo ao outro, disse-lhe:

- Estás a ver aquela casinha branca, ao lado da igrejinha de Santa Bárbara? É a casa do Marialva. Bate aquela porta, talvez ele vos arranje um lugar para dormirem.  

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publicado por picodavigia2 às 11:11





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