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NADA

Segunda-feira, 24.03.14

Não se sabe quem inventou o conceito de nada. Há quem diga que foi um senhor chamado Billen Claane.Certo dia, este senhor ao acordar, pressentindo que estaria a despontar uma mítica e emblemática manhã primaveril, assomou à janela do seu quarto e, como havia um nevoeiro persistente e serradíssimo, pura e simplesmente exclamou: Não se vê nada”.

O senhor Billen Claane deveria ter sido julgado e condenado à morte por inventar tal descalabro linguístico. Antes a janela do seu quarto estivesse emperrada, presa, fechada, trancada, atarraxada, colada, enfim, totalmente obstruída, incapaz de ele a abrir e ver, cá fora, o que quer que fosse. Mas não, o senhor Billen Claane, com um desplante do caraças, abriu a janela, olhou cá para fora e, simplesmente viu o que viu: nada, pelo que não esteve com meias medidas e zás,basicamente e num instante, criou um novo conceito.

Hoje ainda nos chegam ecos deste descuido do senhor Billen Claane, do qual somo vítimas inocentes. Por tuto e por nada, não vemos nada, não comemos nada, não nos importamos com nada e nem sequer prestamos atenção a nada. Se alguém nos pede desculpa, respondemos: “de nada”, se estamos preocupados não dormimos nada, se a má disposição nos domina não suportamos nada e se adoecemos não comemos nada. Se nos mandam trabalhar não nos apetece nada, se vamos a qualquer lugar não demoramos nada, se pedimos um favor não nos custa nada, se chegamos atrasados foi apenas um nada e sempre nos aborrecemos por tudo e por nada. Até dizemos às crianças que tomar uma vacina não doí nada, que se deve comer tudo e não deixar nada, que se chover não se pode fazer nada e que se portar bem não lhe há-de faltar nada. Os outros não sabem nada, a televisão hoje não dá nada, o Benfica não está a jogar nada e aos domingos à tarde não se faz nada. Os alunos não aprendem nada, com nevoeiro não se vê nada, os ingleses não gostam de nada e os gananciosos comem tudo e não deixam nada.

Chegado a este ponto, sinceramente, apetece-me mandar o senhor Billen Claane à fava e não escrever mais nada. Mas gostava que chegasse, mesmo que fosse por decisão governamental, uma lei que pusesse fim a este maldito conceito de nada.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:03





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