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NAMORO ANTIGO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sábado, 14.03.15

Estes namoros de hoje são uma pouca-vergonha. Antigamente, o namoro era muito diferente. Os rapazes e as raparigas só podiam namorar diante dos pais e não andavam por aí agarrados um ao outro por tudo o que é sítio, como hoje em dia. Hoje os rapazes e as raparigas começam a namorar sem os pais saberem mas no meu tempo só se namorava depois do rapaz pedir e ter a devida autorização do pai da rapariga para com ela falar. De contrário era um ver se te avias. É verdade que antes de pedir a mão e de namorar a rapariga do seu agrado, que seria a sua futura esposa, o rapaz bem procurava piscar-lhe o olho, olhar para ela com insistência, de maneira a que ela compreendesse. Se o rapaz lhe agradasse ou até já o desejasse, a rapariga ficava um pouco ruborizado de pudor mas arranjava sempre uma maneira de mostrar que também ele não lhe era indiferente. Depois quando se encontravam lá diziam alguma coisa um ao outro mas numa linguagem quase impercetível, como se costumava dizer, falavam de boca pequena. Depois bem procuravam encontra-se nas festas, nas alvoradas, nos caminhos e ao sair da missa. Os rapazes mais atrevidos lá arranjavam maneira de passar à porta das suas eleitas, às horas que calculavam poder descortiná-la, ou se sabiam que ela ia a uma terra, tratar das galinhas ou fazer um mandalete, arranjavam sempre, com artimanhas, uma maneira de se cruzarem com elas. Mas eram precisas mil cautelas! Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. É que se o pai dela os apanhasse era um ver se te avias. E naquele tempo havia pais muito rigorosos. Alguns açapavam nas filhas de corda dobrada, outros de fueiro. Só depois de pedida a rapariga, o rapaz podia falar com ela ou namorar, mas sempre ela à janela e ele do lado de fora. Não era como hoje que namoram encostados às paredes, onde querem e entendem, sem ninguém a “apastrá-los”. Depois do pai conceder autorização ao rapaz para falar com a filha, comunicava-a à mulher para que esta ficasse a par da situação e se mantivesse alerta. Ao princípio era só ao domingo em que eram autorizados a namorar e às horas que o pai determinasse, geralmente de tarde. Depois das Trindades, nem pensar. Daí o adágio: “Trindades batidas, meninas recolhidas”

O namoro, antigamente, também não demorava tanto tempo como hoje. Alguns ficam anos e anos a namorar e a fazer sabe Deus o quê. No meu tempo, poucos meses depois de terem autorização para falar os pais começavam a pensar no casamento, iniciando-se os preparativos: a rapariga começava a bordar o enxoval, enquanto o rapaz começava a arranjar maneira de conseguir uma casinha. E quando resolviam casar, o rapaz combinava o dia em que iria pedi-la em casamento. No dia combinado, dirigia-se à casa da rapariga, geralmente acompanhado do pai, a fim de pedir ao futuro sogro do seu filho, a filha dele em casamento para o seu filho. Eram ocasiões muito sérias e de muito respeito. A rapariga nem estava presente. O pai, depois de dar o seu consentimento, é que a mandava chamar para lhe comunicar o pedido que a rapariga aceitava logo e de bom grado. A partir do dia de pedido do casamento, o rapaz já podia entrar dentro de casa e passear com ela aos domingos, desde que se fizessem acompanhar por um familiar. As famílias dos noivos passavam a visitar-se, aos domingos, a convidar-se para as matanças uns dos outros, etc. A partir de então dizia-se que a rapariga já estava comprometida pois tinha namorado da porta pra dentro. O pior é que nestes casos, se o casamento era “desmanchado”, a coitada da rapariga, geralmente, ficava para tia, pois tarde ou nunca voltaria a ser pedida em casamento. No meu tempo, nesta freguesia, infelizmente, muitas mulheres ficaram assim. Nunca casaram, ficaram solteiras toda a vida, arranjando filhos de uns e de outros. Basta ver os livros de assentos de batismos da nossa freguesia, do final do século passado, para perceber isso.

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publicado por picodavigia2 às 08:10





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