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NOITE DE TEMPORAL NO MAR ALTO

Terça-feira, 19.06.18

Certa vez em que viajava no Cedros, levantou-se um medonho temporal durante a viagem entre o Faial e as Flores. Logo ao sair da Horta os passageiros haviam sido avisados de que estava previsto mau tempo para a noite que se aproximava e, logo após ao sair da doca, o vento forte já começava a agravar o estado do mar, que piorava a cada momento, provocando um balancear contínuo e exagerado do pequeno navio. Ainda não tinha passado o morro de Castelo Branco e comecei a enjoar, a sentir tonturas, vómitos e enormes dificuldades em segurar-me em pé. O Cedros navegava cada vez mais açulado pelo forte vento norte e com um ranger assustador dilacerava ondas enormes e altivas, provocando grandes balanços e sucessivos solavancos, que assustavam sobretudo mulheres e crianças. Sentindo que ia vomitar e não tendo onde, desloquei-me para o salão da terceira classe na tentativa de descobrir lugar onde me recostasse e onde, à socapa, me aliviasse. O salão estava repleto de crianças a chorar, de mulheres a gritar e de homens a gemer. Quase todos vomitavam e muitos outros estavam prestes a fazê-lo. O salão exalava um cheiro insuportável e o ar lá dentro era pestilento a ponto de sufocar. Saí cá para fora, para respirar o ar puro e fresco, acompanhado dos salpicos do mar. Mas sentia-me em piores condições do que quando entrei. O mar piorava a cada momento o que agravava as condições de navegabilidade do navio que balouçava cada vez mais assustadoramente. O Faial havia desaparecido há muito no escuro da noite e no negrume do temporal. À minha volta a maior parte dos passageiros vomitava. Eu não pude evitá-lo. Uma vasca terrificante e nauseativa apoderou-se de mim e o meu corpo, trémulo e inerte, estatelou-se no convés duro e molhado. Ali fiquei por algum tempo. Salpicado com os respingos da água salgada que a proa do navio ao sulcar as ondas projectava no ar e que caíam em chuveiro sobre o convés e sobre mim, reanimei. Decidi aproximar-me mais da borda do navio e permanecer ali com o rosto exposto ao ar frio da noite e à água salgada. Assim sentia-me mais aliviado. Mas o meu corpo continuava inerte e sem forças. Um marinheiro viu-me e veio tirar-me dali, avisando que era perigoso, pois, na opinião dele, alguma vaga maior poderia molhar-me por completo ou até arrastar-me. Amparado pelo homem, sentei-me em cima de uns sacos molhados que por ali estavam mas onde continuava a ser bafejado pelo fresco da noite que me ia aliviando a náusea e a aflição. A noite continuou num suplício permanente, angustiante e desanimador.

Alta madrugada, adormeci. Quando acordei eram nove horas e o navio balouçava assustadoramente no alto mar, bem longe das Flores, à espera que tempo acalmasse para poder fazer serviço na ilha. Caso contrário, estávamos condenados a regressar ao Faial.

E já passava muito do meio-dia quando o barco, timidamente, se aproximou da ilha e a muito custo lá foi despejando passageiros e mercadorias para os frágeis batéis que o circundavam, os quais opondo-se a ondas altíssimas e assustadoras lá conseguiam transportar os passageiros para o cais do Boqueirão, de Santa Cruz.

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publicado por picodavigia2 às 08:08





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