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O ARAME DA RIBEIRA

Quinta-feira, 26.04.18

Outrora, subir a Rocha sobranceira à Fajã, um pungente e doloroso martírio! Descê-la, uma desafiadora e fascinante aventura! Mas descê-la carregando molhos de erva, feitos, bracéu, ou lenha ou outro carregamento qualquer, uma pungentemente martirizada e castigadora desventura! (Hoje, subida e descida fazem-se por motivações de ordem turística, numa louvável tentativa de reabilitar, recuperar e manter antigos trilhos pedestres, dos quais este é um dos mais delirantemente paradigmáticos.)

 Com mais de 300 metros de altura, a rocha era, naqueles tempos e continua a sê-lo, actualmente, um alcantil escarpado, abrupto, pétreo e a pique, possuindo apenas uma vereda, um aclive íngreme e desnivelado, com trinta e duas voltas desenhadas em ziguezague nas fragas negras e enrijecidas, somando degraus atrás de degraus, intercalados com alguns atalhos mais rectilíneos, vários descansadeiros, algumas furnas e uma inesgotável fonte de água fresca, saborosa e retemperadora de forças – a Fonte Vermelha.

A rocha, outrora, era o único meio de acesso aos matos onde abundavam pastagens luxuriantes e onde para além da erva tenra e fresquinha que alimentava bovinos  e ovinos, sobretudo nos meses quentes do verão e de onde também se extraía lenha, fetos, cana roca e bracéu e outros bens necessários mas difíceis de acarretar até ao povoado, face às dificuldades inerentes ao descer aquelas perigosas veredas, carregando às costas pesadíssimos molhos. Bastavam as latas de leite, os cestos de lã e as ovelhas em dia de fio, que estes não podiam ser carregados de outra forma.

Como “a necessidade aguça o engenho” foi desta dificuldade que nasceu o recurso ao arame para lançar os produtos pela rocha abaixo, com destaque para o mais frequentemente utilizado – o que ligava o cimo da Rocha à Ribeira.

O arame era uma enorme extensão de fio de aço bem esticado e preso nas extremidades a enormes vergas de madeira, umas lá no cimo da rocha e outras cá em baixo, numa espécie de espojadoiro, para tal construído. O arame formava com a rocha e o caminho paralelo à Ribeira e que dava para a Figueira, uma espécie de triângulo rectângulo do qual constituía como que uma real e verdadeira hipotenusa. Assim, fixando-se rijamente de alto abaixo da rocha em diagonal, os molhos, presos por fortes ganchos de ferro em forma de S ou de C, eram nele colocados, um a um e deslizavam vagarosa mas airosamente, como que dançando e balouçando-se ao longo do arame, ao sabor do vento e da gravidade, até atingirem, por vezes, enorme velocidade, e chegarem cá abaixo, donde eram imediatamente retirados.

Na Fajã, ladeada a oeste por uma infinidade de rochas, existiam pelo menos mais três ou quatro arames: um na Rocha da Ponta, um na dos Paus Brancos e outro no Cabeço da Rocha, mas o principal e mais utilizado era realmente “o Arame da Ribeira”.

 

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