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O BOICEIRO (VERSÃO REDUZIDA)

Segunda-feira, 20.01.14

Quando eu era criança, por tudo e por nada, lá vinha a temível ameaça do “Boiceiro”- um horrendo instrumento de tortura e punição - excessivamente doloroso e destinado a punir as crianças que não cumpriam quer os mandamentos da Lei de Deus quer os preceitos da Santa Madre Igreja. Assim, perante qualquer pensamento mau, palavra obscena, desobediência ou acto indigno, vinha a decisão terrível, apavorante e aterradora:

- Para a próxima, vais sentar-te no “Boiceiro”.

Sabia-se, apenas, que o excêntrico instrumento de tortura tinha a forma de uma cadeira, com uma diferença - e que diferença, meu Deus  - o assento. Este estava cravejado de pregos enormes e aguçados, com a ponta virada para cima, com a denodada intenção de penetrar, sanguínea e dolorosamente, no rabiosque do infractor, castigando-o pelas faltas praticadas ou pelos delitos cometidos.

Mas o estranho é que o “Boiceiro”não se via e, consequentemente, o que mais atormentava os prevaricadores, era a sua ameaça permanente. Sabia-se apenas que estava algures, na igreja, atrás do altar-mor, sempre disponível para castigar os jovens e inexperientes pecadores.

Eu, como todos os outros da minha idade, pelava-me de medo com a contínua intimidação de tão pavoroso suplício. Admirava-me, no entanto, que a estroinice de que era acusado, nunca tivesse sido devidamente castigada naquele inferno terreno e, por isso, sentia, cada vez mais, uma enorme vontade de desvendar e conhecer o heteróclito mistério em que estava envolta tão abominável e execranda herança inquisitorial. 

Certa tarde, as tias Graça e Luzia, escalonadas para enfeitar a igreja, decidiram que eu as acompanharia em tão sacrossanta tarefa. Enchi-me de alegria e contentamento. Mais feliz fiquei, quando, ao chegar à igreja, percebi que as tias iriam abrir a porta que estava atrás do altar-mor para ir buscar baldes, vassouras e outros apetrechos necessários à limpeza do templo. De imediato, me concentrei na forma de, sem elas darem conta, tentar explorar as traseiras da capela-mor, na tentativa de ver de perto, talvez mesmo tocar no tão famigerado “Boiceiro”, desvendando assim o enigmático mistério da sua existência.

Esperei que as tias se ausentassem. Aguçava-se-me o desejo de ver a tão torturante e punitiva cadeira. Não tinha ainda acabado de substituir o pavio da lâmpada do Santíssimo e de a abastecer de azeite, quando as tias decidem sair para sacudir as carpetes da capela e apanhar mais algumas flores, deixando-me ali, sozinho, com a obrigação de não mexer ou tocar em coisa nenhuma e com o único objectivo de informar, fosse quem fosse, da sua ausência. Transformado em verdadeiro guardião do templo, esperei um pouco e, de imediato, fui espreitar, sorrateiramente, por trás do altar-mor. A porta estava semiaberta.

Estarreci de emoção hesitante. Por um lado pesava sobre mim uma excessiva curiosidade, mas por outro assustava-me não apenas o espectro do enigmático grilhão mas também a entrada em tão desconhecido recinto e ainda a hipótese, quase certa, de ser apanhado com a boca na botija. Dizia-se que, para além do altar-mor, existia uma espécie de “Sancta-Sanctorum, que só os “eleitos” podiam transpor.

As tias demoravam e isso trouxe-me um medo enorme mas aguçou-me a curiosidade. Era agora ou nunca. Olhei timidamente para o Sacrário, diante do qual fiz uma genuflexão e, pé ante pé, ultrapassei o altar, penetrei no vão que o separava do retábulo doirado da capela-mor, onde estava encravado o camarim. Empurrei a porta semiaberta. Esta rangeu, abriu-se lentamente e eu entrei.

No minúsculo e apertado cubículo pairava um silêncio sepulcral, apenas entrecortado, levemente, pelo tiquetaque do relógio. Lívido, olhei ao redor, sem ver nada ou coisa nenhuma. O temor, no entanto, foi-se desanuviando à medida que os meus olhos se iam habituando à tenebrosidade da betesga. De um lado prateleiras com garrafas de vinho de missa, latas de azeite para o Santíssimo, caixas com moedas do tempo dos afonsinos e andores encavalitados em cima uns dos outros. Do outro, caixotes cheios de maços de velas de estearina, as lâmpadas que acompanhavam as procissões, muitas cruzes e uma data de guiões. Num canto, debaixo das escadas que davam para o piso superior, a imagem do Senhor dos Passos. Uma dor de alma! Jesus num dos mais dolentes momentos de tortura e sofrimento da Sua Paixão. Sentado numa pedra, quase nu, mãos atadas por um cordão amarelado, segurando uma cana a fazer de ceptro e com uma enorme coroa de espinhos cravada na cabeça, lá estava o “Ecce Homo”. Do crânio, perfurado pelos espinhos, saíam-Lhe gotas de sangue que corriam pelo rosto e se perdiam nas barbas ou Lhe salpicavam o tronco e os joelhos. Os ombros avermelhados e o tronco despedaçado faziam entender que havia sido fortemente chicoteado. O seu rosto apresentava-se, simultaneamente, sofredor e angustiado mas confiante e meigo. Fixei-o e senti uma enorme compaixão. Bem me apetecia libertá-Lo totalmente daquele suplício que me fazia lembrar ao que ali viera, com a insignificante diferença de que as picadelas de Jesus eram na cabeça e as minhas haviam de ser no rabo. Ao lado, uma portinhola, com quatro vidros pequenos e toscos a encimá-la, por onde entrava uma claridade pouco clarificante, permitia-me observar melhor a imagem dolente. Espreitei pelos vidros e o meu temor aumentou significativamente. A porta comunicava com o cemitério, onde se visionava uma enorme quantidade de campas, vários jazigos e algumas sepulturas recentes, todas encimadas por cruzes e sobre as quais pairava um silêncio ainda mais assustador. Apesar de aterrorizado, continuei a procurar o “Boiceiro”. Mas nada. Apeteceu-me sair. E se as tias já tivessem chegado? E se aparecesse alguém? Voltei a hesitar por momentos. Mas tinha chegado até ali, continuaria a pesquisa. Decidi subir as velhas e frágeis escadas que permitiam o acesso ao piso superior. Galguei-as a medo, à medida que tentava descortinar o que existia naquele recanto ainda mais enigmático, mais escuro e mais tenebroso do que inferior. Apenas uma fresta, no alto da parede, permitia uma luminosidade mínima, necessária para se identificar o que ali estava. Logo à entrada o esquife em que nas endoenças era transportado o Senhor morto, deposto da cruz. A seguir o S. Miguel, de botas altas, calções e traje nobre, com uma balança na mão direita e uma espada na esquerda. O Arcanjo aguardava serenamente o juízo final, para pesar o bem e o mal praticado pela humanidade. Mais além pendurada na parede a matraca substituta dos sinos na Parasceve e, ao lado, a Senhora da Soledade, totalmente nua, mas com os seios atrofiados e sem parrameiro. Ao fundo do cubículo a essa!

Estarreci por completo. Cheio de medo, dei um enorme grito ao ver aquele horrível catafalco donde via emergir o velho “Laranjinho” – o enigmático representante de todos os finados da freguesia - lembrado no dia dois de Novembro. Totalmente apavorado, desci as escadas em lances de três e quatro degraus, saí pela porta de trás do altar-mor e, esbaforido, corri desalmadamente até à rua, jurando nunca mais ali voltar.

Quanto ao “Boiceiro”havia de permanecer ainda por mais alguns anos, na minha mente, como ameaça mítica, punitiva           e assustadora.

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publicado por picodavigia2 às 14:43





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