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O CAMINHO DOS PAUS BRANCOS AOS LAVADOUROS

Quarta-feira, 08.06.16

O caminho que ligava o Cimo da Fontinha ao Alagoeiro, com destino para o sul, prolongava-se através de montes, escarpas e planaltos, até aos Lavadouros e Curralinho, atravessando e, através de canadas e veredas, permitindo o acesso a muitos outos lugares situados para aquelas bandas, incluindo a Escada Mar, situada num amplo planalto, entre a Rocha e o Pocestinho, com a Silveirinha a seus pés e que se prolongava pela Lagoinha, até aos Paus Brancos e ao Pico Agudo. Por isso, a seguir à Escada Mar, o caminho que se iniciava na Fontinha e Alagoeiro prolongava-se até aos Paus Brancos através de uma reta, talvez a maior deste e de quantos caminhos, existam na Fajã Grande, na década de cinquenta. Assim e após a Escada Mar, o caminho seguia, agora por entre relvas e pastagens cobertas de verde e fresca alfombra, plano, sem ladeiras, paralelo à Rocha, apenas com uma curva e contracurva a seguir à relva do Tomé. A reta terminava no enorme lago dos Paus Brancos onde, virando a oeste se iniciava a canada de acesso ao ligar do Pico Agudo.

Depois, o caminho seguia, mas voltavam as ladeiras, os aclives, as escarpas, as subidas e as descidas e muitas curvas. Primeiro a Ladeira da Alagoinha, muito íngreme e estreita, finda a qual, o caminho formava uma enorme curva, por entre altas paredes, prolongando-se para leste, quase até à Rocha. Era aí que ficava o mítico lugar de Mateus Pires, uma espécie de pequeno enclave junto à Rocha, sobre o qual se contava uma interessante estória. Em tempos idos, contavam os mais velhos, andando por ali um homem de nome Mateus Pires, teve o azar de ser colhido por uma enorme ribanceira que caiu naquele lugar, ficando soterrado debaixo da mesma, nunca mais sendo de lá tirado o seu cadáver, pois a quantidade de entulho caído da rocha era tanta e tal que não havia meios que o permitissem fazer. Dele apenas ficou a memória assinalando com o seu nome aquele lugar, ou seja, o lugar de Mateus Pires. Era por aí também que, através dum atalho muito estreito e tosco, se tinha acesso ao lugar da Horta das Abóboras

Imediatamente a seguir iniciava-se um enorme vale de relvas com boas pastagens. Era o encantador Vale da Alagoinha, no seu esplendor e frescura verdejantes, para o qual se tinha acesso através duma ampla e larga ladeira, que descia do alto de Mateus Pires até ao coração da Alagoinha. Lá ao fundo o caminho ficava paredes meias com a rocha. Quem nele circulasse e levantasse os olhos, detinha-se na temerosa contemplação de um rochedo, abrupto, escarpado e altíssimo, quase a pique. A seguir a mais estreita e mais escarpada ladeira, de difícil escalada, finda a qual o caminho terminava, unificando-se com o que vinha dos lados da Assomada e da Cabaceira e Espigão, formando uma única via que percorria os Lavadouros de norte a sul, servindo assim de passagem a pessoas e animais num dos lugares onde abundavam algumas das melhores relvas da Fajã. Eram relvas verdejantes, encostadas e protegidas pelo sombrio aguado da Rocha, à espera do gado que após a realização de tão longo e extenuantes percursos, quer do lado da Fontinha quer da Assomada, se deliciava com o doce sabor daquela erva, tão fresquinha e retemperadora, tão tenrinha e apetitosa, regada com o orvalho das madrugadas, temperada com o perfume das florestas circundantes, alimentada pelo ciciar gotejante das grotas que escorriam pelos andurriais das encostas e abençoada pelo canto esfuziado dos pássaros a saltar e a vaguear pelos densos arvoredos da Rocha.

Percorrer o caminho desde a Fontinha até aos Lavadouros, para ir “buscar as vacas” nas frescas madrugadas do verão ou “levá-las” nas chuvosas manhãs do inverno era, outrora, um sonho de encanto, um sopro de magia, um devaneio de deslumbramento. Hoje, talvez um mito estigmatizado nas memórias de poucos, uma que este, como tantos outros caminhos, outrora de grande utilidade, perderam-se entre faias, incensos, cana roca e silvados.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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