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O CEVADA

Domingo, 17.05.15

Antigamente, na Fajã Grande, poucos eram os que escapavam â fúria agressiva de serem contemplado com um apelido. Pôr um apelido em alguém, antes que mais, tinha como objetivo primordial humilhar, espezinhar e apoucar, pelo que, a maioria das vezes eram resultantes de uma inveja gritante. Além disso era uma bizarra forma de gozo ou divertimento. Por isso, punha-se um apelido a este e àquele por tudo e por nada. Por coisa nenhuma. A maioria das vezes herdavam-se os apelidos de pais e avós. Foi o meu caso. Herdei “Chinelo” de meu pai, simplesmente porque ele, antes de adoecer, andava sempre descalço. Certo dia, à tardinha, após lavar os pés antes de se deitar, resolveu vir sentar-se à Praça. Com objetivo de não os sujar, a fim de não ter que os lavar outra vez, apresentou-se à Praça, areópago fajãgrandense da crítica, do mexerico e da má-língua, calçando uns chinelos velhos que eram pertença da minha avó Maria de Jesus. Foi tiro e queda! Para além de gozado e apoucado, ficou logo alcunhado pelo “Chinelo”, epíteto de que os descendentes haviam de herdar. Mas não fiquei por aqui em termos de herança de apelidos. Também fui presenteado com o de “Cevada”, este por herança materna, pois fora atribuído a meu avô, José Batelameiro, um depurativo de Bartolomeu, uma vez que o avô dele e meu trisavô se chamava Bartolomeu Lourenço Fagundes, que por sua vez era neto de um outro Bartolomeu com o mesmo nome tenente de um dos fortes que existiam na Fajã Grande naquela altura

Sempre me intrigou a razão de ser deste estranho apelido, até porque o cultivo da cevada na Fajã Grande era quase nulo. Apenas se comprava cevada já moída para juntar ao café, à chicória ou até às favas.  Minhas tias, ou por ignorarem ou por vergonham, também não desvendavam o mistério. Só mais tarde descobri o enigma. Meu avô, como a maioria dos jovens da freguesia, quando jovem emigrara para a Califórnia, trabalhando por aqui e por acolá. Às tantas foi apanhado com um saco de cevada às costas. Nada de anormal se a cevada não fosse roubada. Mas a verdade é que, pelos vistos, não teria sido ele a roubar a dita cuja e nem sequer sabia que era roubada. O roubo era da responsabilidade do “bossa” para quem ele trabalhava. A prová-lo é o facto de ele nunca ter sido preso, nem sequer julgado. Mas lá que ficou com apelido, ficou e eu herdei-o necessariamente.

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publicado por picodavigia2 às 00:33





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