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O CURTUME DE PELES EM SÃO CAETANO DO PICO

Quinta-feira, 08.05.14

A indústria, se é que assim se pode chamar, do curtimento de peles no Pico, possivelmente, terá tido o seu epicentro na freguesia de São Caetano, no que à primeira metade do século passado, diz respeito. Na realidade, nos primórdios do século XX parece ter existido um bom número de curtidores de peles naquela freguesia picoense. Segundo testemunhos, na década de cinquenta do mesmo século, existiriam ainda, na freguesia, cerca de uma dezena de curtidores. Esta actividade, no entanto, tinha um cunho familiar, uma vez que, regra geral, não recrutavam nem empregavam estranhos. Apenas os membros do agregado familiar a ela se dedicavam nas horas vagas, não fazendo do curtume uma profissão a tempo inteiro e consequentemente, um modo de vida exclusivo.

O tratamento e aproveitamento de peles de animais remonta aos primórdios da humanidade. Na verdade, o homem, desde sempre, se dedicou ao tratamento de peles e couros, quer pela simples desidratação, processo simples onde se utiliza algum tipo de sal ou de outros produtos naturais para auxiliar este sistema, quer por um processo químico mais industrial, com a utilização de novas substâncias. Muitas destas novas substâncias, usadas na indústria do curtume são extraídas de alguns tipos de cascas de árvores, que apresentam grande teor de tanino, substância esta que ligada ao colágeno, permite um isolamento das fibras naturais contra fungos e bactérias que são as responsáveis pela degradação da pele "in natura".

Os curtidores de São Caetano conheciam estes processos ancestrais. É verdade que não possuíam o conhecimento científico, nem as formas de acesso a processos químicos, mais modernos, em que a substância mais utilizada é o cromo III, processo que impinge maior agilidade ao curtimento, barateando os custos, e tornando-o mais comercial. Na verdade, em São Caetano, ou devido à falta de conhecimento dessas novas drogas próprias para a curtimenta ou de dinheiro para as adquirir, os curtidores arrancavam faias donde lhe extraiam a casca das raízes, que depois de muito bem batida, era colocada juntamente com as peles a curtir num poço. Depois de as retirar dos poços, as peles eram pregadas com pregos em tábuas e postas a secar ao sol, sendo, depois de bem secas, cortadas às tiras e vendidas.

Havia dois tipos de peles curtidas, consoante se transformavam em sola e carneira. A sola era a pele dos animais maiores, bois e vacas e a carneira dos bezerros e cabras que, depois de muito bem trabalhadas eram depositadas nuns poços com água e cal para lhe retirar o cabelo. Depois eram passadas a cutelo para descarnar e tirar impurezas. Depois eram novamente depositadas no mar amarradas com correntes durante vários dias.

Com a sola, faziam-se as aparcas, com a carneira, faziam-se as correias, para atar quer as botas, quer as aparcas e ainda as luvas que eram usadas quer para acompanhar o foicinho ao mondar os campos e relvas onde proliferavam silvados agrestes, quer para para curtir em estrume no curral do porco e que seria utilizado como adubo das sementeiras, uma vez que era o estrume dos animais que substituía os adubos químicos no estrumar das terras. Quase todos os curtidores, iam vender a maior parte da sua sola, cortada às tiras e metidas num saco às costas, para as outras freguesias do Pico. Tudo era feito a pé, percorrendo muitos quilómetros, batendo de porta-a-porta, de freguesia em freguesia.

Às alparcas, utilizadas por homens e mulheres, eram feitas com sola e com umas arreatas de carneira, sendo-lhes pregados uns pedaços de borracha, extraída normalmente do meio dos pneus deixados de ser usados pelos automóveis, borracha essa que não era barata nem fácil de encontrar, pois os automóveis eram muito poucos, relativamente à procura. Mais tarde, uma parte da borracha, vinha da base aérea das Lajes, da Ilha Terceira, proveniente dos pneus dos aviões Era mais larga, mais resistente e de muito melhor qualidade, e por conseguinte maior duração.

A história da indústria de curtumes está e estará sempre ligada à história da humanidade. O homem primitivo utilizava as peles dos animas como agasalho, curtindo-as por processos simples. Ao longo dos séculos esta actividade foi sofrendo inovações, beneficiando do espírito inventivo de povos e civilizações que sempre reconheceram as características únicas da pele para as mais diversas aplicações e a trabalharam para satisfazer as suas necessidades.

Assim fizeram os curtidores de São Caetano, que com o seu trabalho, simples, árduo mas dedicado e laborioso, escreveram mais uma página da sua pequena mas digna história. Cuida-se que terão sido os frades a ensinar ao povo de São Caetano a arte do curtume, Antigamente, contava-se que na freguesia reria existido um frade curtidor. A prova-lo, ainda hoje existe uma rua com o nume de Canada do Frade.

 

NB - Dados retirados de António Silva  “As Minhas Raízes” e Wikipédia.

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publicado por picodavigia2 às 11:53





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