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O DESCANSADOURO DA ESCADA MAR

Quinta-feira, 23.01.14

Em área, o Descansadouro da Escada Mar, era, sem sombra de dúvida, o maior de quantos descansadouros existiam na Fajã Grande, ultrapassando de longe os maiores, como o do Alagoeiro ou o do Pico Agudo.

Assim, ocupando uma extensa área, mesmo ali quase de debaixo da Rocha, um pouco a seguir ao Cabeço da Silveirinha, o Descansadouro da Escada Mar integrava e situava-se, praticamente, a meio do longo caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros, precisamente no cruzamento que dava para o Pocestinho. Este Descansadouro servia para pausa e repouso aos homens que vinham carregados com molhos, cestos ou sacos, transportando, às costas, incensos, lenha, inhames, maçãs, erva-santa, fetos e muitos outros produtos dos lugares do Curralinho, Lavadouros, Alagoinha, Mateus Pires, Pico Agudo, Paus Brancos, do Pocestinho e de toda a zona da Rocha, desde a Silveirinha até aos Lavadouros. Por isso eram muitos os habitantes da Fajã que, exaustos e cansados, no regresso destas paragens, ali interrompiam a sua caminhada, fazendo uma pausa. Fumava-se (trocando-se lume e cigarros), conversava-se, faziam-se contractos e acordos e, sobretudo, descansava-se porque as distâncias eram longas, o piso do caminho e, sobretudo, o das canadas contíguas era muito íngreme e sinuoso, e as cargas eram pesadíssimas.

O facto de este Descansadouro ser muito espaçoso e ter uma posição estratégica relativamente aos caminhos que servia, permitia que ele fosse também utilizado para descanso dos animais quando puxavam o corsão ou o carro. Poucos dos outros descansadouros da freguesia se podiam vangloriar do mesmo, sobretudo devido à descomunal exiguidade de que eram detentores e que não permitia o estacionamento daqueles meios de transporte e carregamentos.

No Descansadouro da Escada Mar ou Escada do Amaro, como se chamava nos tempos primitivos, as paredes destinadas a colocar as cargas estavam dos lados norte e leste, neste caso ficando de costas para a rocha. Uma e outra destas paredes, de tão altas que eram, protegiam os que ali se acaçapavam ou se encostavam, evitando os ventos mais fortes e a chuva. Além disso, junto à parede norte havia uma tosca bancada de pedra onde os homens se sentavam e abrigavam.

Situado no interior de um pequeno planalto, que abrangia quase todo o lugar da Escada Mar, este Descansadouro, no entanto, não beneficiava de nenhuma vista agradável e bela, nem de fornecimento de água, pois por ali não havia nenhuma nascente. No entanto, situado na proximidade da rocha, que o cercava e protegia parcialmente, esta concedia-lhe uma impressionante imponência, uma enorme monumentalidade e uma graciosidade única e inexaurível. Dominava-o um enorme e transcendente silêncio, envolvia-o uma solene e estranha magnanimidade, cercava-o um perfume de frescura e povoava-o, nos momentos de ausência humana, uma espécie de paz contemplativa, serena e inebriante.

Meu pai, tinha ali mesmo em frente uma relva, pouco fértil e produtivamente muito debilitada, a ponto que dali nada se tirava a não ser fetos secos, após a ceifa do verão. Mas mesmo assim a safra era muito limitada. Por isso, era quando vinha, acompanhado de meu pai, do Pocestinho ou do Pico Agudo, lugares onde tínhamos terras de mato, carregadíssimos com molhos de lenha, erva-santa, cana roca, incensos ou cama para o gado que o repouso no Descansadouro da Escada Mar me sabia como mel na sopa.

Descansadouro da Escada Mar um testemunho idílico num passado austero e rígido, mas intransigente e dignificante, uma quimera desfeita a perder-se sobre memórias soltas, dispersas e esbatidas.

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publicado por picodavigia2 às 17:48





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