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O DESCANSADOURO DA RIBEIRA

Domingo, 23.02.14

Interessante embora prescindível, o descansadouro da Ribeira. Interessante porquanto ladeado pela Ribeira, prescindível pois ficava a dois passos de um seu congénere gigante - o descansadouro do Alagoeiro - com o quase inédito e inexaurível dom de ser dos poucos da Fajã Grande que possui água potável. Afinal e bem vistas as coisas, a Ribeira também possuía água e muita. Mas a água da Ribeira, apesar do seu forte e permanente caudal, da sua pureza cristalina e do seu doce ciliciar-se por entre pedregulhos e moitas de agriões, não era bebível, servia apenas para criar enguias, para lavar roupa e tripas, para os animais beberem e, mais cá para baixo, quase junto ao mar, para mover os moinhos.

Paralelo à própria Ribeira, este descansadouro, que dela recebia o nome, tinha como principal razão da sua existência ou enigmática edificação, o arame, ou seja, aquele enorme fio de aço esticadíssimo, que unia o cimo da Rocha com o chão, mas a uma boa distância da base, a fim de que, tornando-se inclinado, molhos de lenha, de fetos, de bracéu e de erva deslizassem por ali abaixo até se açaparem, uns sobre os outros, num enorme largo que existia cá em baixo, junto à junção da Ribeira com os caminhos da Figueira e da Escada-Mar e que tinha espetadas umas enormes e grossas estacas, onde estava preso o portentoso e inclinado arame. Com o tempo, porém, o descansadouro da Ribeira foi crescendo e alterando o seu estatuto de se reduzir ou limitar a ser apenas uma espécie de serviço de apoio ao dito cujo. O descansadouro da Ribeira também tinha como plano B, servir aos homens que vinham, quer das Águas, quer da Figueira, quer do próprio lugar da Ribeira, carregando, às costas; molhos pesadíssimos de erva, encharcada de água e de limos ou cestos de inhames, muito acaculados e com uma outra folha verde que remanescia como prova do seu crescimento e excêntrico tamanho. E como se isso não bastasse para que aquele local de descanso e de paragem de homens crescesse e ombreasse com o seu congénere do Alagoeiro e quejandos, era o facto de ali em frente ser o local predestinado para as mulheres lavarem a roupa. Muitas mulheres também ocupavam os seus degraus, transformados em assentos, lado a lado com os homens enquanto outras, apesar de objectoras assumidas a tão pouca ortodoxa convivência, não se coibiam de dar dois dedos de conversa aos que a elas se dirigiam, louvando, elogiando, mimoseando e, sobretudo, mirando algum nesga de perna que a saia puxada para cima deixasse vislumbrar, enquanto ajoelhadas a beira do açude, inclinadas sobre os toscos lavadouros de pedra, balanceavam o corpo, em movimentos convulsivos.

Todo este dinamismo e esta excentricidade concediam a este descansadouro um misticismo inebriante, transformando-o num recanto de enlevo, por vezes de namoro.

Os molhos eram colocados sobre as paredes, no rodo em que o próprio caminho vindo do Alagoeiro, entrava, abruptamente, pela ribeira dentro, na margem direita. Entre este e a Canada das Águas a própria ribeira transformava-se em via de circulação para os animais, enquanto os humanos caminhavam sobre uns rebordos laterais, construídos para o efeito. Alta a parede protegia do vento norte e facilitava o estatuto dos voyeurs que ali se sentavam, uma vez que os assentos de pedra ali colocados desembocavam sobre a própria ribeira, onde ficava o açude preferido das lavadeiras.

Nos dias em que se apanhava bracéu ou ceifava feitos nas relvas do Mato, o Descansadouro da Ribeira vivia um reboliço desusado. Eram dezenas e dezenas de molhos atirados pelo arame e, cá em baixo, no largo que lhe servia de plataforma de suporte, dezenas de homens, mulheres e crianças, os mais lestos a retirá-los e os outros a acarretá-los, às costas para o caminho, onde aguardavam que os carros de bois e os corções os trouxessem para casa.

Nos restantes dias, o Descansadouro da Ribeira, vivia uma tranquilidade tranquila, normal e desconcertante, apenas intercalada por momentos de vivências mais intensas, como o lavar das tripas, os dias de oitono, com o gado amarrado à estaca nas forrageiras das terras circundantes ou em dias de fio quando, sobretudo, as mulheres e as crianças, ali se sentavam, antes de subir aquele alcantil pétreo e abruto, que era a Rocha que, no entanto, o abrigava do vento, quando este soprava de leste.

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publicado por picodavigia2 às 22:15





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