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O DIABO

Terça-feira, 17.03.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta e, provavelmente, nas que a antecederam o Diabo ou a imagem que dele se tinha como que fazia parte do quotidiano da população, intrometendo-se, permanentemente, na vida das pessoas. A sua imagem maligna e perversa estava presente a cada hora, em cada momento, havendo, contudo uma hora especial para ele se manifestar – a meia-noite. Muita gente já o teria visto a essa hora. Por isso era conveniente não andar fora de casa depois da meia-noite. Contavam-se estórias macabras e desoladoras. Desses relatos e também das pregações que eram feitas na igreja, era possível traçar o seu retrato. A imagem que dele se apresentava, sobretudo às crianças, para que o afugentassem e não fossem por ele tentadas, era terrível. A do inferno, onde ele vivia, ainda pior. Dizia-se que diabo era preto, tinha um rabo e dois chifres. As suas unhas eram compridas e pés semelhantes aos das cabras. Faiscava como lume e cheirava a enxofre. Usava uma barbicha em ponta e até trazia um chocalho ao pescoço. Mas a sua imagem não era sempre a mesma, uma vez que para poder tentar enganar as pessoas adquiria formas diferentes. Também tinha vários nomes: belzebu, cão-feio, canhoto, coiso mau, eira má, diacho, dianho, demónio, o que anda à meia-noite, inimigo, mafarrico, lucifer, satanás, cão tinhoso, etc. Contava-se que inicialmente ele teria sido um anjo bom, mas que, por soberba, vaidade e inveja, se revoltara contra Deus. Roído de inveja de outros anjos, pedira a Deus mais poderes e grandezas, mas Deus não lhos deu. Como resposta revoltou-se contra Deus. Essa revolta lançou-o no inferno ou no Caldeirão de Pero Botelho. O diabo, geralmente, não andava sozinho a tentar as pessoas. Andava muitas vezes acompanhado de um séquito de diabinhos e diabretes cada qual mais malino e levado da breca. Residia nas "profundezas dos infernos" alimentando terríveis caldeirões de alcatrão e enxofre a ferver, para queimar os perversos que levava consigo. Costumava a aparecer à meia-noite na encruzilhada dos caminhos para pegar e tentar os transeuntes. Tinha fama de tanto ter procurado ajeitar o nariz da mãe que até o pôs torto; e, por fim matou-a com a tranca da porta. Desconfiava-se também que o maldito costumava carregar o corpo dos defuntos para seus domínios, deixando o caixão cheio de pedras. Não se devia pronunciar o nome diabo. Era pecado entregar, isto é pronunciar o seu nome. Confesso que o fiz uma vez em criança, com esta frase, proferida quando descia a ladeira do Batel:

- Lá vem nascendo o diabo da Lua.

Valeu-me levar com a ponta de uma malagueta cortada nos lábios. Doeu?! Ai se doeu. Uma tarde inteira com a boca debaixo duma torneira de água corrente

Também não se devia falar sozinho porque era falar com o diabo. Não se devia "ter partes" com ele e fugir dele "como o diabo da cruz": nem "acender uma vela a Deus e outra ao diabo". Também era aconselhável "não dar esmola ao diabo nem fazer-lhe promessas", nem "comer o pão que o diabo amassou". "Quem andava em demanda com o diabo anda".

Uma das muitas estórias que se contava sobre o mafarrico era a seguinte:

Estava um homem sentado no bacio a fazer as suas necessidades. Pese embora não fosse o momento mais adequado, aproveitou-o para rezar. O diabo aproveitou a incúria do homem e apareceu-lhe para o tentar, perguntando:

- Que estás aí a fazer?

O homem sem se desconcertar respondeu:

- Estou rezando para Deus e cagando para ti.

Com esta se foi o diabo

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publicado por picodavigia2 às 09:56





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