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O FUROR DA LAVA PICOENSE

Segunda-feira, 10.09.18

O Pico é um gigantesco montão de lava. Mas lava viva, outrora vermelha, incandescente, fumegante e destruidora, mais tarde negra, inturgescida, basáltica e besuntada de enxofre e agora aureolada de verde, benéfica, produtiva e perfumada com salpicos de maresia, mas viva, muito viva. Esta lava do Pico tem uma espécie de furor negro, fecundo e vigoroso, a expelir-se em laivos de vinhedos, campos de milho, pastagens verdejantes e encostas a abarrotar de florestas de faia, de incenso e de árvores de fruto. Mas a lava do Pico tem, sobretudo, um furor histórico, escrito e gravado nos regos traçados pelos alviões no solo vulcânico, nas rilheiras dos carros de bois, no mourejar permanente dos remos sobre a braveza do oceano, no arrochado incorruptível dos maroiços e dos currais das vinhas, nos pedregulhos rolantes das canadas, nos gritos das marés incertas, no estalejar do vento nas encostas e andurriais. A lava do Pico como que espelha e reflecte a vida, os costumes, os trabalhos, as tradições, os bailados e a música das suas gentes.

O furor desta lava, destemida e altaneira, dá, ao Pico, uma vivência efusiva e efervescente, transforma-o num gigante de ousadia e audácia, substancia-o num amontoado de tradições e costumes, aureola-o de esperança e confere-lhe uma crença telúrica, inconfundível. O furor desta lava é suco generoso, é chão de ousadia, é arroteamento de emoções. A lava é uma espécie de bálsamo tonificante e fertilizador, que transforma o sofrimento em promessa, a angústia em esperança, a destruição em recompensa, o deserto em abundância, a pequenez em grandiosidade, o nada em tudo. A lava do Pico é uma espécie de rio de espuma incandescente, a deslizar por entre pedaços de chão rachado, a fertilizar os vales, a enrijecer os montes, a calcificar os pântanos e as lagoas, a alimentar os vinhedos e as florestas, a perder-se, como que envergonhada e tímida, no meio de um oceano de desejos indefinidos, transformando-se em gigantescas marés de graça, de solenidade e de ternura. A lava do Pico tem um furor que não é capaz de se conter. A lava do Pico jacta-se, expele-se, espalha-se e projecta-se em labaredas de cores, de sons, de esperança, de alegria e de amizade.    

Realizando um périplo pelo Norte do País, assentando arraiais na Região do Vale do Sousa, mais concretamente na freguesia de Meinedo, concelho de Lousada, como convidado do Rancho Folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa, de Romariz, o Rancho Folclórico de São Caetano do Pico, não só trouxe consigo, como também expeliu e esparramou, nas noites escaldantes durienses, o furor lávico da sua música, do seu bailar e das suas coreografias - estonteante perfume da história, da cultura, das tradições, dos costumes e dos cantares duma ilha, que teima em se espelhar na grandiosidade do seu passado e de se ostentar nas vivências do seu presente.

O grupo constituído por mais de quarenta elementos, actuou em três festivais. Primeiro, na própria freguesia de Meinedo, uma das 25 do concelho de Lousada, ombreando com ranchos folclóricos de renome nacional, como o Rancho Folclórico Tá-Mar da Nazaré, o Rancho Folclórico os Camponeses da Beira-Rio, da Murtosa-Aveiro e com o rancho anfitrião. Um espectáculo de grande qualidade, balizado num espaço histórico, numa das freguesias mais populosas do concelho de Lousada, com cerca 4 000 habitantes, o equivalente ao concelho da Madalena, tendo como ex-libris a igreja românica de Santa Maria Maior, cuja fundação remonta ao século XIII. Sabe-se que nos primórdios do cristianismo na Península, Meinedo, então designada por “Magneto”, terá sido, segundo toda a probabilidade, a primeira sede da Diocese do Porto.

A segunda participação do Rancho Folclórico de São Caetano, teve lugar na não menos histórica freguesia de Cárquere, concelho de Resende, junto ao Mosteiro que na Idade Média foi, depois de Santiago de Compostela, um dos maiores centros de peregrinação da Península Ibérica, construído por Egas Moniz e sobre cujo altar – ainda hoje ali existente – se terá verificado a cura milagrosa do menino que viria a ser o primeiro rei de Portugal – Afonso Henriques.

Finalmente, num terceiro espectáculo, o Rancho da mais jovem freguesia do concelho da Madalena, actuou em plena Vila de Lousada, perante numeroso público, no largo do Senhor dos Aflitos, por coincidência, frente à estátua de um dos mais ilustres lousadenses - Dom António Augusto de Castro Meireles, 34º bispo de Angra (1924-28) e, depois, bispo do Porto.

Foram noites fantásticas, de cor, de sons, de movimento e alegria, onde o Rancho Folclórico de São Caetano espalhou toda a sua classe, dignidade, singeleza e performance, deixando aos presentes uma deslumbrante e transcendente imagem, não apenas da freguesia de São Caetano, mas também da ilha do Pico, transformando-se, assim e de que maneira, num magnífico embaixador da sua cultura, dos seus costumes, dos seus valores, dos seus potenciais turísticos e, como não podia deixar de ser, dos seus bailados e da sua música, numa palavra espalhando, aqui, pelas terras durienses o verdadeiro e inconfundível “furor da lava picoense”.

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