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O GRACIOSA

Sexta-feira, 21.02.14

O Graciosa era um dos mais interessantes e típicos restaurantes da cidade da Horta. Situada nas traseiras do largo do Infante, o acesso às suas instalações fazia-se através de uma espécie de arco, situada no primeiro piso de uma habitação que, aparentemente havia sido transformado numa espécie de pequeno beco. O restaurante, que herdara o nome do seu proprietário, por ser oriundo da ilha Graciosa, para além da cozinha, tinha duas enormes salas, onde se serviam as mais variadas vitualhas, a maioria delas, comum aos tradicionais pratos açorianos, sobretudo, das ilhas do grupo central. Era lá que as pessoas vindas das Flores iam almoçar sempre que o Carvalho, nas suas idas e vindas entre as ilhas, ancorava na doca ou até quando vinham ao Faial e ali ficavam a acompanhar algum familiar doente, a consultar médico ou a fazer algum tratamento impossível de realizar-se nas Flores.

Foi na minha primeira viagem entre as Flores e São Miguel, acompanhado pelo Senhor Aurélio, que demandei pela primeira vez as instalações do Graciosa. Depois de deambular pela cidade, propôs o meu paraninfo que fossemos, ali almoçar. Manifestei uma reservada recusa em acompanhá-lo. Cuidava eu que almoçar num restaurante ficaria muito caro e corria o risco de gastar ali todo o dinheiro que levava, ou pior, nem sequer ter dinheiro para pagar a despesa. A minha intenção era entrar num café e comprar um pão com queijo e uma laranjada. Ele, porém, apercebendo-se da razão porque me esquivava, encorajou-me:

- Anda lá. Não vais ficar aqui, sozinho, na cidade. Sei que tens pouco dinheiro. Mas podes vir à vontade. O Graciosa enche muito os pratos. Hei-de repartir alguma coisa contigo.

O Graciosa estava repleto. Soldados, estudantes, seminaristas, padres, professores, homens e mulheres, muitos dos quais se haviam cruzado comigo a bordo. Outros, envergando fatos de cotim, chapéus de aba virada e calçando albarcas, não escondiam a sua origem de picarotos. Havia também senhores de fato e gravata, homens de negócio, funcionários do estado e um ou outro marinheiro. Como era dia em que o Carvalho chegava das Flores, a ementa era variadíssima, dado que a clientela estava assegurada, sobretudo, por se tratar duma viagem no mês de Setembro, quando muitas pessoas regressavam de férias. O prato principal e o mais solicitado era feijão assado, mas havia também molha de carne com inhames, torresmos de porco com batata-doce e veja frita com bolo do Pico. Homens, mulheres, soldados, estudantes e seminaristas de toda a ilha das Flores demandavam e enchiam aquele prodígio pantagruélico da gastronomia faialense ou para se desaforarem dos miseráveis cardápios que lhes proporcionava a Insulana, a bordo do Carvalho ou para se prevenirem da fome que haveriam de passar nos dias seguintes.

Sentei-me à mesa com o Senhor Aurélio que optou pelo feijão assado. O empregado ou porque fosse muito generoso nas doses que servia ou porque o Senhor Aurélio lho pedisse sem eu me aperceber, exagerou-lhe na dose, servindo-lhe um prato bem acuculado de feijão. Ele, pedindo um prato vazio, repartiu-o, gratuitamente, comigo. Apenas paguei um pão e uma laranjada.

Saímos do Graciosa ainda era muito cedo. Demos uns passeios pela cidade e sentámo-nos nos bancos do Largo do Infante, a acompanhar o movimento da cidade, a ver os automóveis que circulavam pelas ruas em grande número e a contemplar a mansidão do mar, os navios e os iates ancorados na doca, os respectivos desenhos dos que por ali haviam passado, as pequenas embarcações que entravam e saíam da doca e a imponência da montanha do Pico que, erguida mesmo em frente, começava a lançar uma ténue neblina sobre o Oceano.

O Carvalho desatracou da doca da Horta, com rumo ao Cais do Pico, já passava das cinco. Assim que regressei de terra, subi ao convés da primeira e deparei com uma espreguiçadeira vazia. Estava exausto, cheio de sono e com a barriguinha cheia. Encostei-me o mais comodamente possível. Foi tiro e queda…

Quando acordei o Carvalho balouçava ancorado fora do Cais do Pico. A noite já ia alta e a faina habitual das lanchas entre o navio e o porto do Cais, como que se resumia a uma pequena lancha que de meia em meia hora ia a terra e voltava pouco tempo depois ao navio, arrastando os pesados barcos que transportavam carga diversa e mercadoria. O número de passageiros que embarcava no Pico era muito reduzido. A maior parte, sobretudo os da parte Sul da ilha e da Madalena, preferiam atravessar o canal nas lanchas e embarcar na Horta, por isso, os poucos que entravam no Cais já haviam embarcado todos e o paquete aguardava a madrugada a fim de rumar às Velas. A noite estava muito escura e o céu pejado de estrelas. A sombra da montanha confundia-se com a escuridão e penetrava no universo celeste, parecendo aproximar-se das próprias estrelas. Apenas na faixa costeira da ilha quer a leste quer a oeste do Cais do Pico e de São Roque, tremelicavam aqui e além algumas luzes cravadas na massa basáltica da montanha, por trás da qual, para o lado das Bandeiras, parecia emanar uma espécie de claridade a anunciar que dentro em breve a Lua, havia de aparecer e iluminar a ilha e o Oceano.

Percorri novamente o barco de lés-a-lés e voltei à terceira classe, onde nunca mais entrara desde a tarde do dia anterior, quando o Senhor Artur exarara a sentença que me condenava a passar três noites e três dias ao relento. Pensava eu que, tendo desembarcado, no Faial, muitos passageiros oriundos das Flores, os camarotes e beliches ocupados por eles estariam agora livres. Assim, ia solicitar-lhe um beliche para as duas noites seguintes. Mas o que eu não sabia, ou não queria saber, na opinião do Senhor Artur, é que no Faial tinham embarcado ainda mais passageiros do que os que tinham desembarcado vindos das Flores e que até muitos deles, como eu, também viajavam sem acomodação. Saí muito triste, com os olhos rasos de lágrimas, mas resignado com a suprema certeza de que não havia mais nada a fazer. Estava definitivamente determinado que eu havia de passar mais duas noites ao relento, sem ter cama onde me deitar.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02





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