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O IMPÉRIO DOS TRICICLOS

Domingo, 18.11.18

A abertura da estrada entre o Porto da Fajã e a Ribeira Grande, no lugar do Pessegueiro, veio alterar radicalmente os meios de transporte de produtos agrícolas fajãgrandenses. Até então e quando os produtos das terras não eram acarretados às costas, o corsão de madeira, puxado por bovinos e a arrastar sobre as pedras da calçada, era o tipo de transporte mais utilizado na Fajã Grande. Os carros de bois eram raros e os existentes pouco utilizados. Daí o frequente e contínuo recurso ao típico e tradicional corsão de bois. Mas na nova estrada, com piso de bagacina e, mais tarde, alcatroado, foi obviamente proibido o uso daquele veículo rastejante. É que, deslocando-se por arrasto, o corsão destruiria por completo o liso e fofo tapete da nova e moderna via de comunicação. Daí que toda a zona limítrofe da nova estrada, desde o Vale da Vaca ao Vale Fundo, ao Delgado, Cabaceira, Moledo Grosso, Lombega, Cancelinha, e até à Cuada ficasse impedida dos seus produtos serem acarretados em corsões.

Bem verdade é que a necessidade aguça o engenho! Foi precisamente nesta altura e por esta razão que surgiram, na Fajã, os célebres triciclos que dominaram e se impuseram no transporte dos produtos agrícolas da zona e lugares acima referidos. Muito provavelmente inspirados nos pequenos brinquedos das crianças com o mesmo nome, começaram a construir-se triciclos gigantes, do formato quase semelhante ao dos carros de bois, embora de tamanho bastante menor. Só que as rodas em vez do arco de ferro que as envolvia eram mais pequenas, mais leves e eram forradas e protegidas por uma tira de borracha ao seu redor, a fim de as proteger do desgaste, de tornar o seu deslizar mais suave e o seu peso menor. O cabeçalho era mais grosso do que o dos carros de bois e sobre ele existia um assento de forma triangular, para o condutor. Na extremidade do mesmo em vez do buraco da chavelha e da canga havia um orifício onde se enfiava e no qual rodava o guiador, e que se articulava a roda da frente. Os triciclos eram munidos de travões nas rodas de trás.

O primeiro triciclo que houve na Fajã foi construído pelo José Furtado ao qual se seguiram muitos e muitos outros. Por vezes era impressionante o número de triciclos que deslizava pela Assomada abaixo, carregados com lenha, fetos e cana roca, incensos para o gado e até milho e batatas. No entanto os triciclos tinham um senão: é que só deslizavam “de volta a baixo”, enquanto na subida tinham que ser empurrados pelo próprio dono, o que, por vezes, tornava o seu uso mais difícil, incómodo e pouco abonatório. Havia, no entanto, quem na subida os atrelasse a um burro, resolvendo assim o problema. Direito a baixo, porém, eram um regalo. Desciam velozes, bem carregadinhos lá vinham os próprios donos todos prazenteiros a conduzí-los. Alguns até timham uma corneta a servir de buzina, não fosse algum transeunte ser atropelado.

Paralelamente aos triciclos começaram também a surgir os "carros de mão",  estes sim, uma espécie de miniatura dos carros de bois, mas empurrados e puxados pelo próprio dono. Nestas espécies de miniaturas dos carros de bois o cabeçalho não tinha, obviamente, o buraco da chavelha mas sim, de um lado e outro, um pequeno pau encravado a que se agarravam as mãos de quem os puxava ou conduzia.

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publicado por picodavigia2 às 00:00





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